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5 Coisas que Aprendi Escrevendo e Publicando Lobo de Rua

N.E.: Este é um texto da convidada Jana P. Bianchi, autora de “Lobo de Rua”, a princípio autopublicado, que será reeditado pela editora Dame Blanche.

Lobo de Rua, novela de fantasia urbana que foi também a minha primeira publicação, é o marco zero de uma almejada carreira como escritora profissional. Primeiro clichê do texto, mas verdade universal: aprender é um processo constante. Nele, nossa experiência própria é o que mais conta, mas a absorção da experiência de terceiros também tem grande valor. Por isso, compartilho aqui cinco coisas que aprendi com a minha primeira publicação. Senta que lá vem história! 🙂

 

1 – Escrever é preciso (ou: escrever é simples)

Escrevi Lobo de Rua para uma coletânea do Clube de Autores de Fantasia no Widbook. Não havia deadline, não havia curadoria ou avaliação e, a princípio, os leitores seriam apenas os colegas do próprio CAF. Não por mera coincidência, foi também o texto que escrevi em menos tempo, com mais “facilidade”: o rascunho inicial, que tinha umas 16 mil palavras, foi escrito numa catarse doida em apenas quatro dias. Acontece que (spoiler!): minha produtividade nunca mais foi a mesma depois disso. Só mais tarde, depois de notar essa decadência, aprendi que tirar a ideia da cabeça é um processo simples, e que escrever sem cobranças e sem perspectivas é muito bom pra aumentar o rendimento. Por outro lado, o primeiro rascunho (pelo menos os meus) dificilmente está em condições de ser publicado — pra não dizer que está em condições de ir apenas para o lixo, em geral. O que me leva ao segundo aprendizado.

 

2 – Estudar é necessário (ou: escrever não é assim tão simples)

Depois de lançar o conto na coletânea e receber feedbacks bem legais, resolvi publicar a novela na Amazon. Pra tanto, passei o texto original pela leitura de amigos críticos e confiáveis (não, mamãe não se encaixa nessa categoria) e dei uma bela modificada no texto. Nessa releitura, já percebi um tanto de coisa errada — no texto, na história, nos personagens, na vida, em tudo — e, depois da publicação final, ainda recebi muitos outros retornos pertinentes apontando mais um monte de falhas. Falhas que eu reconheço e que, pra ser bem sincera, me saltam aos olhos de tão evidentes. E foi só depois disso tudo, quando comecei a fazer cursos de escrita criativa e pesquisar mais sobre como contar uma história e sobre o ato de escrever, em si, é que percebi que o buraco é ainda mais embaixo: escrever é uma arte (esse é o segundo clichê do texto hehe). E, como todas as artes, o bom resultado vem de uma combinação de técnica com inspiração (ou talento, se é que isso existe). Não tem escapatória. E depois que descobri isso, minha média de palavras escritas em um período de quatro dias caiu para 6 ou 7 mil (e isso se o período for MUITO bom). O que aprendi com isso é que tirar a ideia da cabeça pode até ser simples, mas contar a ideia de uma maneira atraente, elegante, competente e pertinente é bem mais complicado e exige muito mais tempo e esforço. O primeiro rascunho é só o começo. D:

 

3 – Publicar é lidar com as suas expectativas (ou: segura seu forninho)

Depois da publicação, descobri duas coisas: a) minha novela não é o pior texto do mundo e b) minha novela não é o melhor texto do mundo. Pode parecer óbvio, mas aprendi que lidar com essas duas afirmações todos os dias através dos feedbacks é uma experiência pela qual todo escritor precisa passar para encontrar o equilíbrio ideal entre autoconfiança e autocrítica. E a maneira mais fácil e rápida de conseguir feedbacks positivos e negativos — de pessoas diversas e confiáveis — é publicando, seja como for (Amazon, Wattpad, Widbook, blogs ou livro físico). Além disso, tanto as críticas quanto os elogios têm um poder estimulante muito louco, pelo menos pra mim. Sempre que recebo um bom retorno, tenho vontade de sentar e escrever pra produzir mais coisas legais. Quando recebo um feedback mais incisivo, crítico, tenho vontade de sentar pra escrever e fazer melhor (“OK, Sr. Que Me Deu Uma Estrela no Goodreads. Challenge accepted”).

 

4 – Publicar é lidar com as expectativas dos outros (ou: com grandes poderem vêm grandes responsabilidades)

Publicar é também criar expectativa (na gente, mas também nos outros) sobre nossas próximas publicações. E, pra variar, isso também é bom e ruim ao mesmo tempo. Pouco antes de publicar Sombras, uma noveleta que se passa no mesmo universo de Lobo de Rua (que já tinha tido um retorno médio bem legal), tive uma crise neurótica só de imaginar que as pessoas poderiam se decepcionar com a minha nova publicação. Bateu um medo de ser uma fraude, de não merecer todas as boas avaliações ou até de não conseguir melhorar as falhas apontadas nas avaliações mais críticas. Por outro lado, frequentemente recebo mensagens de pessoas que dizem que estão ansiosas por novas publicações, e isso me deixa muito empolgada e muito feliz. E também me leva ao último dos cinco aprendizados.

 

5 – É importante criar uma imagem e um público (ou: começando a conquistar seu lugar ao sol)

Mais um clichêzinho: escrever pode ser bastante solitário. E isso não é muito bom (pra mim, pelo menos — acho que, a esta altura, já perceberam que tudo é muito pessoal, né). Sozinhos com nossos botões, a chance de perder todo aquele equilíbrio autocrítica/autoconfiança é gigante, pendendo tanto pra um lado quanto para o outro. Assim, ter com quem dividir nossas atualizações sobre escrita, nossos êxitos e nossas decepções nessa carreira tão emocionante é importante, senão essencial. Além disso, escrever e publicar é só o começo — ser lido é uma outra etapa ainda, e uma etapa que não depende apenas da qualidade do texto. Ser lido — por leitores ou por editores, caso estejamos em busca de publicação convencional — depende de uma série de coisas que inclui traquejo social e reputação. E a reputação tem tudo a ver com o nosso comportamento (na vida real e nas redes sociais) e com o nosso alcance, nosso público, nossa pertinência, mesmo que em uma escala bem local e pequena. Depois que publiquei Lobo de Rua e comecei a me posicionar como escritora nas redes sociais e na vida, comecei a ser procurada para participar de várias coisas legais, online e off-line. Também senti muito mais facilidade na hora de conhecer pessoas do ramo, de me apresentar, de mostrar o início da minha carreira como algo concreto. De considerar minha carreira como algo concreto dentro de mim, mesmo.

Atualmente, estou intercalando a produção de alguns contos com os capítulos do rascunho inicial do meu primeiro romance. Continuo estudando e coletando aprendizados com profissionais, com outros autores experientes e até com colegas iniciantes que estão trilhando caminhos diferentes do meu. Como já era de se esperar, estou aprendendo ininterruptamente sobre escrita, sobre como contar histórias, sobre mercado, sobre como minha própria cabeça funciona na hora de criar e também sobre como extrair mais produtividade de mim. Sei que o aprendizado nunca acaba, mas sei também que a curva também vai se estabilizando ao longo do tempo (desculpa, meu lado engenheiro falando). Com essa certeza, fica mais fácil ir dando um passo atrás do outro no caminho de quem, um dia, quer viver da escrita.


Jana P. Bianchi é leitora, filha, viajante, irmã, escritora, colaboradora do Clube de Autores de Fantasia, humana da maltês Pipoca e, nas horas (não) vagas, engenheira de processos industriais. Publicou a novela Lobo de Rua em 2015, a noveleta Sombras em 2016 e teve o conto Analogia publicado na revista Trasgo. Desde então, vive metade do tempo com a família em Paulínia (SP) e a outra metade na Galeria Creta, um antro dos submundos de São Paulo onde a realização de qualquer desejo está sempre em estoque. Suas pirações podem ser encontradas em facebook.com/galeriacreta.

Frase do dia: Com grandes forninhos vêm grandes responsabilidades.

Foto: Divulgação

Postado em Convidados no dia 22 de setembro de 2016

6 Comentários

  1. “Escrever é combinar técnica com inspiração.” Também acredito nisso. Lembrou-me de um professor que falava que escrever era engenho e arte, sendo engenho a criatividade, e arte a técnica.

    • Jana P. Bianchi

      Jana P. Bianchi

      Né? Acho que é importante investir nos dois aspectos pra escrever algo legal. Negligenciar um ou outro só torna as coisas mais difíceis!

  2. Janaina

    Janaina

    Você é uma inspiração, Jana. Muito bom, van Kampen, ter publicado esse texto em teu blog. Obrigada!

    • Jana P. Bianchi

      Jana P. Bianchi

      Obrigada, xará! Agradeço o Rodrigo pelo espaço! 🙂

  3. Autora de sucesso, talento e carisma!
    Dicas que valem a pena ler.

    • Jana P. Bianchi

      Jana P. Bianchi

      Valeu, grande D’arc! 🙂

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