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6 dicas de escrita de um editor rabugento

Sempre que faço um intensivo de avaliação de contos da Trasgo percebo alguns erros simples que se arrumados fariam bastante diferença na leitura e fluidez do texto. E outros detalhes que me fazem atirar o lápis contra a tela do computador.

Hífen não é travessão

Existe um motivo para os sinais gráficos existirem. Você não usa & no lugar do travessão. Você não usa @ no lugar de travessão. Então por que raios você acha que pode usar o hífen?

– Isso é um hífen, e isso não é um diálogo.
— Agora sim estamos falando.

Ah, mas que chatice, qual o problema do hífen? Ah, mas qual o problema de comer com os pés em cima da mesa? Nós não somos selvagens, esse é o problema. Ok, deixa eu explicar: hifens existem no meio do texto, veja só! Então eu também não consigo usar um “procurar e substituir” e trocá-los todos, ou corro o risco de ficar com bizarrices como “abri—lo” ou “fazê—lo”.

Então vamos combinar: use o travessão, ok? Ou duplo hífen, que também facilita na hora de substituir tudo. A propósito, o Word costuma substituir duplo hífen por travessão. Ou você pode apertar “alt 0151” no Windows, coisa linda.

Faça eu me importar com alguém

A maioria dos textos é rejeitado quando eu chego ao final da primeira ou segunda página pensando “por que raios eu estou lendo este conto?”. Não, não, não! A esse ponto eu já deveria estar preocupado com alguém. Com um personagem em apuros, alguém que está no lugar errado na hora errada, um conflito prestes a estourar. Se ao final da segunda página você ainda está explicando a geopolítica do seu cenário, tem algo muito errado com o seu conto.

Sentimentos! Eu quero sentir alguma coisa! Raiva, pena, esperança, alegria, tristeza. Dane-se a origem do conflito entre os Krugs e os Blobs, eu quero saber daquele Blob que só quer conseguir chegar em casa a salvo hoje.

Uma variação comum é começar com o soldado na batalha, que só quer chegar em casa a salvo (ok, começamos bem). Então ele começa a refletir sobre a banalidade da guerra e dá-lhe páginas e páginas explicativas da origem da guerra, cenário político, contextos e mais contextos. Zzzzz.

Não é difícil. Personagem + motivação + obstáculo. Receitinha de bolo.

Eu não ligo para os seus índios genéricos

Por algum motivo (talvez por que eu tenha reclamado demais de fantasia europeia escrita por brasileiros) comecei a receber muitas obras com contextos indígenas. O que é bom!

O que não é bom é que metade desses índios parecem tão autênticos quanto a tribo do Papa-Capim. Sério, gente, se você vai escrever sobre outra cultura, o mínimo a fazer é pesquisar sobre ela. Não adianta colocar uma tanguinha e um cocar num branco e transformá-lo num “índio” (e índios brasileiros não usam tanga e o cocares têm significados simbólicos importantes).

Existe uma boa intenção aí, mas é preciso se aprofundar na relação daquela tribo com os espíritos e lendas da floresta, de como elas moldam a visão de mundo daquele povo. Dizer que “eram apenas histórias que ouvíamos do cacique” é bastante raso. Também porque “cacique” não é um termo indígena, mas um termo que os brancos usavam para denominar os líderes.

Enfim, estou reclamando aqui da demonstração dos indígenas, mas isso vale para qualquer cultura representada: faça a droga da lição de casa.

Corte o seu próprio texto

A Trasgo recebe contos de até 8 mil palavras. Não raro recebemos material com mais de 6 mil, alguns bem próximos do limite. Avaliar, revisar e trabalhar com o material recebido dá trabalho. Quanto mais próximo do limite de palavras, melhor tem que ser o seu conto.

Veja bem, um conto de oito mil palavras vai dar o dobro de trabalho do que um de quatro mil. Então é bom que valha a pena!

O maior problema dos contos recebidos é excesso de material. Explicações demais, adjetivos demais, cenas desnecessárias (uma das frases que mais coloco na leitura crítica é “isso não é importante”). No conto cada palavra tem que mover a história adiante, cativar, provocar a personagem e a história. Tudo bem que você construiu uma space opera complexa, uma trama política intrincada com várias raças disputando o poder e tal. Jogue isso para o cenário, vai ficar ótimo.

Não traga o cenário para o primeiro plano. A leitura fica arrastada e tediosa, rouba o espaço da protagonista. Imagine que você vai ao teatro. O cenário é lindo. Uau! Mas metade do tempo da peça é apenas uma luz passeando pelos detalhes do cenário de gesso. Chato, não? Na literatura é a mesma coisa. O cenário é encantador, mas são as personagens que merecem os holofotes.

Aprenda a descrever mulheres

Ok, eu entendo que você quer dar representatividade à trama. Afinal, eu já disse que tenho rejeitado cenários só com homens. Mas, pelo amor de Afrodite, ao colocar uma mulher na trama, descreva-a como os outros personagens. Fale do seu temperamento, fale até da sua armadura, mas nunca descreva-a sensualmente à toa.

O anão era baixo e rabugento. O ladino era alto, esquio, de olhos castanhos e passos silenciosos. A elfa usava uma armadura prateada que só não era mais bela que seus olhos de fada, os longos cabelos negros a escorrer pelo corpo escultural, os seios firmes num amplo decote, magra, sensual, odiava usar calças, preferia um micro-bikini, andava rebolando, etc.

Se esse povo descrevesse os homens como descrevem as mulheres, daria nisso aqui, ó:

Assertividade, por favor!

“E o seu medo de ter medo de ter medo não faz da minha força confusão…” Eu canso de ler incertezas nos textos enviados à Trasgo. A começar por expressões com dupla negativa, como “não hesitou em”, ou “não pode deixar de…” Gente!

“Ela não hesitou em dar-lhe um beijo”. Se ela não hesitou por que tanta palavra? “Ela deu-lhe um beijo de supetão”, porque beijo bom não tem essa insegurança toda no texto.

Outro problema é quando o autor está inseguro, e isso passa para o texto. Coisas como “ela não sabia se estava chocada ou feliz com a notícia” ou “ele estava apavorado e confiante” (sério, já escreveram isso). Escolha um e conte a história, porque a indecisão não é da personagem não.

Ok, há espaço para incerteza, mas, assim como os advérbios, precisam estar naquele lugar certinho, bem encaixada. Assim como as outras dicas daqui. Você é você, claro. Mas pense com carinho nisso, e faça um editor feliz.

E travessões, não hífens. Sério.

Frase do dia: "A secretária entrou na sala batendo os saltos, arrancando suspiros dos estagiários e olhares dos chefes. O decote era um convite à imaginação que humpurdfajsklj hfkljash fkj aaaargh! "

Foto: The 3 bulldogs Flickr via Compfight cc

Postado em Pensamentos no dia 15 de março de 2017

3 Comentários

  1. Olá! Gostei das dicas. Você sabe mais ou menos a porcentagem de homens e mulheres que enviam contos pra revista? Parece que tem muito mais homens, por causa da dica sobre descrição de personagens femininas (imagino que esse erro seja mais cometido por homens).

    • Olá, Wlange! De fato nós recebemos muito mais contos de homens. Em geral mais de 90% dos contos enviados para a revista. Estamos tentando mudar isso, atrair mais mulheres escritoras para que enviem contos para a Trasgo.

  2. AMEI o texto rsrsrsrs adoro ler coisas de gente que chegou no seu limite. Deu até vontade de mandar um conto pra trasgo

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