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A prática leva à perfeição?

Imagine que duas adolescentes queiram aprender Kung-Fu. Juliana vai a uma academia, se inscreve, e começa a praticar duas vezes por semana por uma hora. Já Patrícia acredita que consegue aprender sozinha. Então ela vai até o quintal de sua casa e pratica socos, chutes e movimentos pelo triplo do tempo que a amiga.

Qual das duas você acha que estará com o chute mais efetivo depois de dois meses de treino? E depois de um ano? Dois?

Nós falamos muito sobre o trabalho necessário, a quantidade de horas para aprender qualquer tarefa, mas raramente usamos o termo “prática orientada”. Um bom professor pode apontar o caminho certo e tornar uma hora de prática muito mais rica para o aprendizado do que semanas tentando a esmo.

Muito se fala do estudo de Anders Ericsson sobre as tais dez mil horas de prática, popularizada pelo livro “Outliers”, de Malcolm Gladwell. Sim, elas são necessárias, não existe atalho. Mas o outro lado da moeda é que é possível praticar esse tempo todo e se tornar apenas mediano (isso sem falar em lesões que a prática não orientada de determinadas atividades pode acarretar).

But how you practice is far more important than how much you practice. Long hours of drilling some martial arts skill over and over again just to log in repetitions isn’t enough to make you a master. Many might be familiar with another statement from coaching legend Vince Lombardi, “Practice does not make perfect. Only perfect practice makes perfect.”

Tradução: Mas como você pratica é muito mais importante do que quanto você pratica. Longas horas de repetição nas artes marciais de novo e de novo apenas pela repetição não são suficientes para fazer de você um mestre. Muitos devem conhecer as palavras do lendário treinador Vince Lombardi, “A prática não leva a perfeição. Só a prática perfeita leva à perfeição.”

Daqui: http://www.ninjaselfdefense.com/2016/03/perfect-practice/

Sim, existe o auto-aprendizado, há quem aprenda muito por livros, tutoriais no Youtube e todo o tipo de material de referência. Já outros se dão melhor sob o olhar de um professor experiente. Até a supervisão em excesso mais atrapalha do que ajuda.

Por um curto perído de tempo fui instrutor de Kung Fu. Quando um aluno novo chegava à academia, nós tínhamos que ensinar o básico para ele. Posturas, posições, socos e chutes. Então, demonstrávamos um soco e pedíamos para ele repetir o movimento. Ele repetia algumas vezes, nós corrigíamos um detalhe, talvez o cotovelo alto. E deixávamos ele repetir mais um pouco, antes de apontar o dedão saindo para fora do punho. E assim as aulas seguiam, com o aluno evoluindo.

Não é que a gente não percebia todos os erros logo no início. É que se você corrigir cinco coisas de uma vez, ou o aluno vai esquecer a primeira quando você chegar na última, ou ele vai se atrapalhar tanto que a aula não vai dar certo. É preciso dar espaço para descoberta. No caso do Kung-Fu, espaço para que o aluno descubra o próprio corpo, se acostume com os movimentos, para que realmente entenda sua correção.

No caso da escrita (e agora vamos chegando onde eu queria chegar), é preciso deixar que o escritor experimente, erre, teste estilos, vozes e formatos para que descubra onde fica mais confortável. Temos poucos cursos de escrita no Brasil, com isso muitos aprendem na marra. É possível, mas com alguém para apontar o cotovelo alto e o dedão para fora, a evolução em pouco tempo é enorme.

É um jogo de morde e assopra. “Experimente isso, brinque com as palavras, isso não ficou legal, e se você tentasse por esse lado?”

Ainda nesse assunto “criatividade”, estava vendo uma palestra no TED sobre procrastinação e criatividade, que estudou três grupos de pessoas: os “precrastinadores”, os “procrastinadores moderados” e os “procrastinadores crônicos”.

Os resultados são muito interessantes. Os procrastinadores crônicos raramente conseguem aproveitar seu potencial criativo. Já o primeiro grupo, que entrega tudo meses antes do prazo, costuma ficar com a primeira ideia, não tão genial assim. O grupo do meio, que “enrola”, atrasa um pouco, foi considerado com as ideias mais criativas e originais.

And then I worked diligently toward my goal of not making progress toward my goal. I started writing the procrastination chapter, and one day — I was halfway through — I literally put it away in mid-sentence for months. It was agony. But when I came back to it, I had all sorts of new ideas. As Aaron Sorkin put it, “You call it procrastinating. I call it thinking.”

Tradução: E então resolvi trabalhar diligentemente atrás do meu objetivo de não progredir em direção ao meu objetivo. Comecei a escrever o capítulo sobre procrastinação e um dia, — bem na metade — eu parei no meio de uma frase por meses. Foi agoniante. Mas quando voltei ao texto, tinha várias novas ideias. Nas palavras de Aaron Sorkin, “Você chama de procrastinação. Eu chamo de pensar.”

Daqui: https://www.ted.com/talks/adam_grant_the_surprising_habits_of_original_thinkers/

Ou seja, é preciso um equilíbrio entre prática livre ou prática orientada, entre ter um objetivo e correr em sua direção ou ir com mais calma, abraçando os desvios do caminho. Ok, não é a resposta fácil que você esperava.

Mas se você está procurando um curso de escrita criativa online, com foco em fantasia e ficção científica, alguém para te ajudar a entender em que trabalhar no seu próprio texto, minha oficina de redação está com vagas abertas até o domingo da semana que vem (22/05)!

Acesse aqui: http://viverdaescrita.com.br/oficina-de-redacao/

Frase do dia: O que seria de Donatello, Michelângelo, Leonardo e Rafael se não fosse o Mestre Splinter? Apenas Tartarugas Mutantes Ninjas.

Foto: Clement Soh via Compfight cc

Published in Pensamentos no dia 13 de maio de 2016

2 Comments

  1. Daniel Rocha Daniel Rocha

    Gostaria muito ler um texto seu sobre histórias inacabadas e como lidar com elas. Adoro seu blog!

    • Olá, Daniel!
      Isso tem a ver com estruturação de histórias, vou pensar em algo para escrever aqui sim. 🙂

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