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Alinhamento de personagens (ou como fazê-los brigar)

A primeira vez que ouvi falar sobre alinhamento de personagem foi quando jogava RPG lá no começo da adolescência. Nunca dei muita bola, até porque os mestres com quem eu jogava não se baseavam na tabela, apenas na descrição e background do personagem para avaliar a interpretação.

Então outro dia estava ouvindo um episódio do Imaginary Worlds, podcast que adoro, abordar o assunto. Algo clicou na minha cabeça. O sistema de alinhamento (também traduzido como tendência) é uma forma didática de entender motivações e conflitos, e pode ajudar muito na criação de personagens para literatura. Se você quer povoar sua história com personagens que pensam diferente um do outro, mesmo que estejam do mesmo lado, vale a pena dar uma boa olhada nisso.

O segredo do sistema de alinhamentos é que ele é uma matriz, não uma linha. Calma, eu explico. Vamos começar do básico: o bom e o mau. Personagens boas são empáticas e altruístas, e personagens más são egoístas, sádicas, enfim, más. Vamos colocar isso em uma linha.

Bom
Neutro
Mau

Ok. Agora que a coisa fica divertida: o outro eixo vai do leal ao caótico. Ou, em inglês, lawful e chaotic.

Personagens leais são aquelas que seguem a lei acima de tudo. E por “lei”, você pode entender uma série de conceitos, como a legislação vigente, a tradição, costumes, a ordem. São aqueles que atuam sempre dentro dos parâmetros pré-estabelecidos.

E personagens caóticos estão do outro lado do espectro. São aqueles que buscam romper com os sistemas, quebrar a ordem pré-estabelecida, que agem à revelia das leis e tradições. Agora vamos juntar as duas coisas em um gráfico só.

Bom
Neutro
Mau
Leal Neutro Caótico

Então temos essa bagunça aqui:

Leal-Bom Neutro-Bom Caótico-Bom
Leal-Neutro Verdadeiro Neutro Caótico-Neutro
Leal-Mau Neutro-Mau Caótico-Mau

Agora é que a cabeça de muita gente começa a confundir. Como alguém pode ser caótico-bom? Ou leal-mau? Vamos lá.

Se o personagem é caótico significa que ele age quebrando as leis e regras preestabelecidas. Ninguém disse que essas regras são corretas. Um personagem caótico bom quebraria as leis para fazer o bem, para ajudar aos outros. Pense na hacker que vai burlar os sistemas de segurança para prender um criminoso corporativista, por exemplo. O caótico apenas vai dobrar as regras, quebrá-las, para o bem ou para o mal. O Coringa, por exemplo, é um típico caótico-mau, ele vai quebrar todas as regras, inclusive suas próprias, para provocar o caos e o terror.

Vamos pensar do outro lado da tabela. Leal. A confusão vem porque geralmente associamos a palavra “leal” a uma qualidade. Para facilitar o entendimento, você pode pensar em “leal à tradição”, que as coisas ficam mais claras. Um burocrata que age segundo as leis e tradições e quer mantê-las a qualquer custo, mesmo que isso signifique manter a escravidão, as mulheres submissas ou algo parecido, será um personagem leal-mau. Já o herói leal-bom quer fazer as coisas segundo as leis e as regras. Se as regras estão em desacordo com seus princípios, ele primeiro lutará para mudá-las. É o típico caso do “advogado herói” em filmes.

E os neutros, onde entram nessa história toda? O verdadeiro neutro muitas vezes é um personagem coringa (também chamado “camaleão” segundo algumas teorias literárias). Um leal-neutro vai agir de acordo com as regras, independente se isso beneficia os herois ou atrapalha. Geralmente são representados em figuras de autoridade. Já o personagem caótico neutro é o espírito livre, aquele que vive sua própria liberdade, sem se importar se isso é bom ou mau. Muitos gnomos, duendes e sacis na literatura se enquadrariam como caótico neutro.

E os verdadeiros neutros são aqueles no meio do gráfico. São os indecisos, preocupados com o próprio bem estar. São personagens difíceis de trabalhar, pois dificilmente se movem para qualquer direção que seja, é preciso uma boa dose de motivação.

Se você quer ler em detalhes como se comporta cada uma das combinações da tabela, achei bons textos no blog D&D Campinas.

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Se você quer mais tabelas de exemplos como estes, a internet está cheio deles. Basta clicar aqui, ó!

Para que serve tudo isso?

Como usar tendências na elaboração de histórias?

Você tem um grupo de heróis. Se todos eles pensarem igual, a história vai ficar chata. Conflitos dentro do próprio grupo vai tornar a história mais rica, mais tensa, mais emotiva. Então, se todos querem derrotar o Grande Vilão, por que eles vão brigar? Simples: porque um dos heróis vai querer destruir uma cidade inteira pelo bem maior (caótico-bom), enquanto outro vai querer agir somente dentro das regras, sem envolver terceiros (leal-bom). Essa é a briga do Batman contra o Super Homem. Agir dentro de um conjunto de regras, ou quebrá-las para eliminar o mau? Isso também reflete no grau de violência, personagens caóticos costumam ter menos restrições ao uso de violência do que leais, e isso pode dar uma baita briga.

Usar personagens diferentes, tanto nos heróis, nos vilões e nos personagens secundários, fazem com que a narrativa avance de um jeito muito mais interessante, permite que a gente descubra as verdadeiras motivações de cada um deles, e até onde estão dispostos a ir em busca dos seus objetivos.

Se você clicou no link dos exemplos acima, vai ver que as boas histórias, os clássicos da cultura pop, têm personagens que preenchem todos os quadros da tabela.

Também cabe lembrar que tudo isso é uma simplificação. Muitos personagens agem de modo diverso em cada fase da história, e alguns talvez não se encaixem nesse sistema. Mas é um meio de pensar e analisar os seus personagens e ver o que está faltando. De repente uma boa olhada no gráfico te proporciona aquele conflito necessário no meio da obra, onde as coisas são mais arrastadas e as barrigas começam a aparecer.

Vamos falar um pouco sério?

Personagens leais raramente se entendem com personagens caóticos. Enquanto um diz “vamos fazer as coisas conforme as regras”, o segundo dirá “as regras estão corrompidas, precisamos bagunçar tudo”. Veja bem, nenhum dos dois lados está necessariamente certo. Falando do mundo real, é muito difícil de prever as consequências de cada uma das atitudes.

Então, nessa situação em que está o país, pense um pouco no sistema de alinhamentos. Tente, apenas tente, entender o outro lado. Eu tenho uma opinião bastante convicta sobre isso, acho, veja bem, acho, que é preciso manter a legalidade, acho muito perigoso ignorar as leis, a Constitução e invalidar eleições, por mais besteira que o governo esteja fazendo. Mas então faço um esforço para entender onde estou nesse gráfico. Leal… Bom? Neutro? Mau? Todo mundo se acha o herói da própria história e só o tempo é capaz de dizer o contrário.

Só estou pedindo um pouco de tolerância com o amiguinho. Todo mundo quer o fim da corrupção (dã.) Então parece que somos o Batman contra o Superman. Dois heróis do mesmo lado saindo na porrada.

Chega de falar sério

Para encerrar esse artigo de forma um pouco mais colorida, uma dica para abrir a cabeça. Você pode usar uma matriz para qualquer tipo de coisa para enriquecer sua história. Como por exemplo:

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Frase do dia: Agora PRECISO colocar um personagem caótico-andrógino na minha história.

Foto: left-hand via Compfight cc

Published in Literatura no dia 18 de março de 2016

2 Comments

  1. Concordo com vc.Qdo há ebulição e só apagar o fogo.O país precisa de paz e meditação.
    Qto ao nosso assunto a dúvida é: qto vale um Escritor?

  2. Adorei a frase do dia! 🙂

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