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Como me tornei sonhador

N.E.: Texto do convidado Lucas Amaral, criador do Clube de Autores de Fantasia.

 

Natal de 1996, tenho oito anos. Em meio às guirlandas, crucifixos e figuras santas, um grupo de pessoas se reúne em círculo. De mãos dadas e ombros nivelados com cinturas em jeans desgastados, os adultos iniciam uma oração. Minha avó, ao perceber que permaneço em silêncio, me repreende. Poucos momentos depois, lá está o pequeno Lucas, repetindo palavras que não lhe fazem sentido algum. Foi o primeiro sintoma da represália social.

***

Era um dia qualquer de outono de 2005. Aos dezessete, sou obrigado a postar-me diante da bandeira nacional e cantarolar o hino nacional. Novamente, menos por rebeldia e mais por questionar os motivos para tal, me calo. Os ombros agora são irmanados mas, ainda assim, há represália. Dessa vez, um tanto convicto com relação à minha linha própria de pensamento, persisto.

O ato me conduz a um dia de suspensão e um pedido de desculpas que, ainda hoje, faz tanto sentido quanto tirar caroço de banana. A quem, não sei dizer. Sentado, defronte a meus pais e à diretoria escolar durante cinco horas, não havia outra opção.

***

Abril de 2014. Meu aniversário. Espremido em um ônibus lotado, às 06:25 da manhã, meus pensamentos vagam por lugares distantes, tão distantes quanto um mundo fictício pode nos levar. Perambulam pelos entornos do meu livro, recém-planejado.

Naquela época, a semana de trabalho ocupava-me das seis da manhã às nove da noite, incluindo o transporte, e tinha aulas noturnas do MBA às sextas-feiras e nos sábados matinais. Sendo assim, me restavam 24 horas para mim, tempo em que voltava à minha amada cidade e dividia-me entre estar entre amigos e escrever. Os únicos momentos felizes. Todo o resto se resumia em torcer para que tudo aquilo acabasse.

O veículo azul pesado da Mercedes-Benz pára no ponto. Desço, às pressas, rumo à agência, que apelidei de Bangu Zero. Pense bem. Em algum momento da vida, você também deve ter corrido para um destino infortuito. Trabalho, então, em uma empresa de publicidade, lugar onde, por mágica ou insensatez, os ponteiros correm devagar.

Sou o responsável pelo setor de marketing digital, onde vendo imóveis para classes baixas. As ferramentas por si só fazem boa parte do trabalho, e os resultados são satisfatórios. Não há aqui nenhum mérito digno de aplausos. Vendo sonhos e esperança. Pura balela. O que faço é encher ainda mais os bolsos de algum rico Tio Patinhas de gravata, fartos da coisa verde, para que tenham mais automóveis com estofado de couro.

Essa foi a época em que minhas costas conheceram o maior número de tapinhas, os ouvidos captaram o maior número de elogios. Após cinco anos e cinco empregos, eu tinha uma carreira promissora, depois de me formar em jornalismo e estar correndo a minha pós-graduação em Marketing Digital. Finalmente, eu estava adaptado à sociedade capitalista. Um boneco de Lego.

Os passos correm para chegar no horário. Há trânsito, há gente, há fumaça e pressa. Mas, em meio à movimentada circulação de cidadãos apressados de Belo Horizonte, uma placa me chama a atenção. Praça da Liberdade. Um dos cartões postais da capital mineira. Sobre os prédios do governo no entorno, um triângulo vermelho é contornado por palavras antigas. Libertas Quae Sera Tamen. Não entendo bulhufas de latim, mas, como bom mineiro, a tradução é instantânea: Liberdade Ainda que Tardia. Eu não precisava de mais sinais. Foi o suficiente.

Contrariando todas as experiências frustradas do passado em Natais e escolas, resolvi bater o pé. E os passos rumo à agência tomam o caminho oposto. Estou de volta à minha cidade, sem dinheiro e sem futuro, vítima de olhares piedosos. Eu me sinto nos livros de George Orwell, um refém preso no mundo hipotético de Alan Moore em V de Vingança.

Em meio às amarguras e incerteza de todo “vagabundo”, percebi que tinha uma forte aliada ao meu lado: a internet. Se as graças da vizinhança não são coniventes, há outros caminhos. Criei, então, o Clube de Autores de Fantasia. Foi difícil no começo. Buscava no Google por autores de fantasia, horror, ficção científica e quadrinhos, e entrava em contato. Ingresse em meu clube, eu dizia a eles. Aos poucos, uma família foi se formando. Uma comunidade que crescia de maneira sutil, mas essencial. Desse modo, me senti vivo. Podia dedicar tempo à escrita, podia conversar sobre a escrita, respirar a escrita.

Mas, ao contemplar os confins da existência em linha ascendente, eu ainda era um pobre miserável, sobrevivendo de freelas, muito mais às custas dos pais que outra coisa qualquer. Não importava. A decisão de lutar devia ser mantida.

Quando a iniciativa é natural, os sons dos mosquitos ao pé do ouvido tornam-se canto de rouxinol. E, ainda que a minha contribuição para a literatura seja ínfima, bem, estarei ciente de que dei meu melhor.

Quero fazer da literatura fantástica um Clube da Esquina dos livros. Provar aos acadêmicos ranzinzas que a ficção absurda traz, sem sombra de dúvidas, reflexões que são levadas à esfera real. Mostrar aos fanáticos religiosos que a imaginação não merece ser campo ceifado. E, por que não, um dia me tornar um escritor? Se há uma coisa que aprendi redigindo fantasia, é que não há limites utópicos.

Ainda hoje, em meio a Instagrams e Facebooks, observo os sorrisos de antigos colegas, quase todos bem-sucedidos, em viagens a Paris e convenções no Vale do Silício. E, entre as marés instáveis do pensamento, sempre me vem à mente uma história que gosto de contar.

Aconteceu pouco tempo depois de eu pedir demissão. Vi um menino, no auge de sua transformação mirim, lendo um livro. O tempo parou. Eu observava, ali, em meio à movimentada praça, o futuro refletido. Ele estava concentrado, quase abduzido. Em meio às páginas, algo lhe chamou a atenção. Há silêncio. O vento bate nos cabelos lisos, fazendo tremular as páginas, mas o leitor é resoluto, insistente. Agarra o exemplar às mãos e persiste. E então, o sorriso.

Acho que no fundo é isso que significa ser escritor. Se importar mais com o sorriso dos outros que com o próprio. E, se ainda assim você me achar um idiota, bem, talvez você não seja do tipo sonhador…

 

Lucas Amaral, jornalista, com MBA em Marketing Digital. É o criador do Clube de Autores de Fantasia, participante de antologias das editoras Andross, Darda, Buriti e Três Macacos. Trabalha como social media na Bookstart, plataforma de financiamento coletivo onde acredita apoiar os sonhos dos autores. É embaixador do Widbook. Tem o poder de luta de quase 15, e já foi um clérigo de nível 7. E, com muito orgulho, escritor.

Frase do dia: "Verdadeiramente maravilhosa, a mente de uma criança é." — Mestre Yoda.

Foto: begemot_dn via Compfight cc

Published in Convidados no dia 3 de dezembro de 2015

3 Comments

  1. Elmo Odorizzi Elmo Odorizzi

    Bravo, Lucas, bravo!

  2. Dani Conrado Dani Conrado

    Parabéns Lucas, ótimo texto! Sempre admirando e torcendo por você e seu trabalho! Também sou dessas…sonhadora! Abração!

  3. lina marcia c n da slva lina marcia c n da slva

    BOOOOOOA CUCA!!!!!

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