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Como ter seu livro publicado

“Terminei meu original. E agora, o que eu faço?”

Recebi um e-mail curioso outro dia:

“Oi, Rodrigo, tudo bem? É o seguinte: eu terminei um original e não sei o que fazer agora. Devo procurar um agente? Enviar para uma editora? Você conhece alguém pra me recomendar? O mercado literário é uma novidade para mim, gostaria de contar com sua experiência pra saber qual o próximo passo…”

Em primeiro lugar, muito obrigado mesmo pela consideração. Infelizmente a verdade é que a minha “experiência em mercado literário” é praticamente zero. Nada. Nothing. Eu não vi, mas minha esposa viu… Eu tenho amigues em editoras, amigues com livros publicados e amigues agentes literários, e vou juntar aqui nesse post toda a sabedoria que não é minha para tentar ajudar meu camarada.

O que era para ser uma resposta simples virou uma jornada. Respire fundo que o mergulho será longo!

Seu livro está “pronto”, “pronto pronto”, ou “pronto de verdade mesmo?”

O “pronto” de um livro é uma coisa muito engraçada, sabe? Se você acabou de colocar o ponto final no último capítulo, se você fez uma única revisão, se você não mostrou esse original nem para o seu cachorro, sinto lhe dizer, mas o seu original não está pronto. Ainda.

O que você tem em mãos não é um original, mas uma coisa chamada “draft”. A tradução ao pé da letra é “rascunho”, mas vou chamar de “monstrengo”. Então vamos aprender primeiro como transformar um monstrengo em um original.

A primeira versão do livro nunca é aquela que o livro pode ser. O mostrengo costuma ter alguns problemas, como:

  • Buracos de roteiro (muito comum)
  • Personagens mudando de nome
  • Clichês e estereótipos
  • Problemas de ritmo (trechos apressados demais e as chamadas “barrigas”, que não acrescentam nada à trama e podem ser cortadas)

Acontece que você, escritore, raramente consegue enxergar os furos em seus próprios trabalhos, é preciso um outro olhar. Aí que entram duas figuras bastante interessantes: o leitor beta e o leitor crítico ou parecerista.

Para uma discussão bacana sobre essas figuras, recomendo o episódio do podcast Os Doze Trabalhos do Escritor com o Zé Wellington.

As duas funções são semelhantes. São pessoas que vão ler o seu monstrengo e apontar essas falhas que estão no seu ponto cego.

Betas

Um leitor beta é alguém do público, que vai apontar os pontos fortes e fracos, e assim vai te dar uma ideia do que funciona ou não na sua narrativa. Por isso é recomendado que você escolha pelo menos três leitores beta diferentes, de perfis diversos.

Por exemplo, se você escolher somente homens como leitores beta, talvez eles deixem passar alguma coisa muito óbvia sobre a sua protagonista feminina. Se você trabalha com diversidade (e você deveria trabalhar com diversidade), o ideal é que os leitores beta pertençam ao grupo representado, pois poderão falar em que partes você mandou bem e mal.

Leitores beta são geralmente amigues escritories, às vezes fãs, pessoas com um grande volume de leitura e forte senso crítico. Evite enviar o seu monstrengo para familiares e parentes, ou qualquer um que tenha a tendência a amar qualquer porcaria que você escreve. (Ok, você pode enviar para a sua mãe e ficar super feliz com o comentário positivo dela, mas não deixe isso inflar o seu ego e não a leve tão a sério na hora da reescrita).

Leitura crítica e parecerista

Quem faz leitura crítica ou parecer literário faz a mesma coisa do que um leitor beta, com uma diferença fundamental: é um profissional do campo que sabe o que está dizendo. Ou seja, você contrata alguém para fazer a leitura crítica do seu monstrengo.

O leitor crítico devolverá um documento muito mais robusto, indicando os pontos fortes e fracos da narrativa, a estruturação de personagens, cenário, estilo e linguagem, barrigas e falhas de roteiro.

Esse documento também apontará onde estão os maiores problemas, além de clichês e estereótipos no seu monstrengo (pareceristas leem muito dentro do gênero em que são especialistas, por isso enxergam uma estrutura padrão a parágrafos de distância, coisa que os betas às vezes deixam passar).

Um parecerista também poderá apontar o público mais indicado, alguns livros de referência de estrutura semelhante, com a mesma temática ou que dialoguem com a obra de alguma forma.

Você encontra profissionais que fazem esse serviço, e outros de que possa precisar, ali no Banco de Fornecedores para Autopublicação.

Espera, agentes e editores não fazem essa leitura?

Sim. Autories já publicados às vezes podem mandar o monstrengo para agentes ou editores , que topam ser um tipo de “leitor beta”. No entanto, se esse é o seu primeiro livro ou se o editor não está louco para publicar o seu próximo volume, é melhor passar por todas as etapas antes, ou ele vai abandonar o seu original depois do primeiro parágrafo e ir ao próximo da enorme lista de textos enviados.

Você não terá nem chance de ser lido até o final se não fizer a lição de casa antes.

Ok, recebi a resposta dos betas ou do leitor crítico, o que eu faço agora?

Reescreve, ué. Agora é hora de domar o monstrengo pelos chifres e reescrever, arrumar os problemas, limar os clichês e assim por diante.

Cuidado para não se apegar àquela primeira versão do seu livro. A única função dela é existir, não ser publicada. O que vai ser publicado é algo bem melhor. Já ouvi de autor brigando com editor dizendo que “meus amigos adoraram e só você fica achando defeito”, o que é péssimo para a sua imagem como profissional.

Leia também: Como receber uma crítica

Então é hora de um pouco de humildade e de começar a trabalhar duro na reescrita. Muitos livros incríveis que a gente vê publicado são na verdade a terceira, quinta ou sétima versão do manuscrito. Há algumas técnicas de reescrita que ajudam, mas nem vou entrar nisso agora para não aumentar ainda mais esse post. Deixe o texto um pouco na gaveta, permita que as críticas decantem e volte ao texto com ânimo.

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Mas eu já enviei para betas, já reescrevi, já estou na quinta versão!

Oh, então você não tem um monstrengo nas mãos, mas um verdadeiro original. Parabéns!

Agora você tem a dura lição de encontrar uma casa para ele. Uma das opções é a mais óbvia (mas não a mais fácil): a tal da autopublicação.

Autopublicação

Não adianta nada autopublicar e não vender, ok? Certo, então vamos falar sobre o jeito certo de fazer autopublicação. Você vai precisar de:

  • Uma capa incrível.
  • Uma ótima revisão de texto (revisão final, que é diferente da leitura beta).
  • Um planejamento de marketing (como você vai divulgar o seu livro, quem é o seu público, como você vai chegar até ele).
  • Um bom e-book ou uma boa gráfica para fazer a impressão.
  • Dinheiro para custear os itens acima.

Há quem pule etapas e atire aos leitores um livro mal feito, que não passou por betas, que não foi reescrito. Esse é o caminho mais rápido para queimar a largada e não conseguir publicar mais nada posteriormente (editoras não vão se interessar por alguém que acumula críticas negativas online).

Existe a ideia de que “autopublicar é fácil”. Ok, autopublicar é fácil mesmo. Vender? Nem tanto. Milhares de novos livros são jogados na Amazon todos os meses, como você garante que alguém vá ler o que você escreve? A maioria das histórias de sucesso da autopublicação tem um fator que a maioria dos novatos não pode contar: um público prévio. Se você tem um blog, um canal, um grupo de fãs, o seu caminho será muito mais fácil.

A autopublicação às vezes é vista pelos autores como um “atalho”. Vou publicar meu livro na Amazon ou no Wattpad, vou ser lido por milhões de pessoas e assim o contrato com uma editora vai vir, fácil fácil. Só que não. Nós vemos as histórias de sucesso e ignoramos os vários (vários, VÁRIOS) autores com relativa qualidade que nunca conseguem passar a arrebentação das ondas e chamar a atenção de verdade.

A ideia aqui não é desanimar, é apenas dar um chacoalhão em quem pensa que “basta jogar lá e os leitores virão”. É preciso um bom trabalho para colocar um produto de qualidade e mais trabalho ainda para conquistar os leitores.

Agente literário

No Brasil temos poucos agentes atuando, o que faz com que encontrar um agente literário seja quase tão difícil quando encontrar uma editora. Mas eles existem e se você conseguir um bom agente o seu caminho até a publicação será muito mais suave. Mas como encontrá-los? Onde vivem? O que comem? O que fazem?

Um agente faz a ponte entre o autor e a editora. Ou seja, um bom agente vai trabalhar o seu original, deixá-lo mais redondo e então “vender” a uma editora, conseguindo um contrato que seja vantajoso a ambos os lados. Também é responsável por cobrar da editora aquilo que está escrito no contrato em relação a lançamentos, divulgação, investimento e afins.

Suas chances são maiores quanto mais próximo do “seu círculo” estiver o agente. Esse círculo pode ser várias coisas.

  • Geográfico: existe algum agente na sua cidade? No seu bairro, na cidade vizinha?
  • Por assunto: você escreve literatura queer paulistana e existe uma agente que trabalha com três ou quatro autories que escrevem sobre isso também? Suas chances são maiores com esta pessoa.
  • Por círculos sociais: o primo da esposa do seu cunhado é agente literário? Bom, não custa tentar.
  • Por grupos de interesse: há um agente literário no mesmo grupo do Facebook sobre Viagens em Motos de 125cc?

Agentes recebem toneladas de submissões. Por isso as suas chances são maiores se você tiver alguma forma de se aproximar. É como um encontro. Qual a chance de conseguir um encontro sem nada em comum?

Como chegar a um agente (ou editor)

Primeiro: pergunte. Veja no site como esta pessoa prefere apresentações. Alguns vão pedir para enviar o original, outros uma sinopse, outras uma proposta. Se você tem algum contato com a pessoa, vale a pena um contatinho para perguntar pessoalmente, as suas chances aumentam.

Seja legal, converse, pergunte. Não seja seco, não seja um robô. “Oi, escrevi um livro, quer agenciar?” Principalmente em eventos, não seja uma dessas pessoas esquisitas. “Oi, tudo bem? Meu nome é fulano de tal, você trabalha com o tipo de literatura X? Publica o meu livro?” Ouça um pouco, comente sobre os autores agenciados por ele que você leu (você leu, não leu? Se não, volte à primeira casa). Um pouco de charme não faz mal a ninguém.

Talvez o seu texto não se encaixe no tipo de literatura que ele trabalha. Talvez ele simplesmente não esteja aberto a novos autores. Mas a médio prazo você pode ganhar um aliado no meio, o que vale ouro.

Cuidado com agentes picaretas: Infelizmente esse é um campo fértil à picaretagem. Há agentes que esfolam a pobre autora sonhadora, por isso alguns cuidados básicos são essenciais. Cuidado com agentes que cobram agenciamento, principalmente se for algum tipo de adiantamento ou mensalidade. Por padrão, agentes recebem uma fatia do lucro do autor. Quanto melhor for o contrato que conseguir para o autor, maior será o próprio lucro. Há agentes trambiqueiras que cobram um alto valor para “tentar” vender o seu livro às editoras, o que raramente dá certo. (Observação: há agentes que cobram pela leitura crítica e parecer literário. Isso é comum, e não é a mesma coisa que cobrar por agenciamento.)

Os concursos literários

Outro caminho para publicar um romance é pelos concursos literários. Há grandes autores que foram descobertos em concursos nacionais de romances e seguiram depois para outras casas da literatura nacional.

De modo geral, a literatura de gênero (FC, fantasia), tem pouco espaço em concursos literários, que costumam buscar uma expressão mais acadêmica, ou seja, que têm no cuidado com as palavras e poética da obra a sua expressão máxima. Se esse é o seu estilo, suas chances são um pouco maiores do que se você, por exemplo, escreve romances de ritmo ágil e tramas policiais em mundos futuristas. Não é impossível, só um pouco mais difícil.

Para inscrever sua obra em um concurso ela precisa estar o mais próximo possível da versão para publicação. Ou seja, tudo muito bem reescrito e revisado. Leia com cuidado as regras de envio. Alguns exigirão bastante da tinta da sua impressora, requerendo três cópias anônimas em envelopes pardos. Outros aceitam envios digitais. Preste bastante atenção para não ser desclassificado logo de cara.

Concursos nacionais têm premiações maiores, mas a concorrência é acirrada. Por outro lado, concursos locais costumam reservar uma categoria para “talento local”, onde as suas chances são muito boas. Não menospreze concursos menores, podem ser uma boa porta de entrada para conquistar um público ou iniciar o contato com uma editora, por exemplo.

Um bom ponto de partida é acompanhar blogs como o “Concursos Literários“, que publicam com frequência os principais concursos nacionais. Fique de olho também nos jornais da sua cidade, bairro e estado, que também abrem concursos que podem passar despercebidos, principalmente aqueles que acontecem anualmente.

Sobre concursos que cobram: Já ouvi de uma autora da Academia Campineira de Letras, que trabalhou na organização e juri de vários concursos, o posicionamento categórico: “nunca participe de concursos literários que cobram pela participação do autor.” Então fica aí a dica.

Finalmente, as editoras

Isso! Eu quero ser publicado por uma editora, de preferência uma das grandes do Brasil! Você e todo mundo, não? O problema é justamente esse. As caixas de entrada das editoras estão abarrotadas de autories que gostariam de publicar os seus livros, e não há contingente humano para ler tudo o que chega a cada dia. A triste realidade é essa.

Sim, editoras às vezes escolhem alguma obra dessa pilha, há autories que foram publicados seguindo esse modelo. Mas calma, há algumas chances de aumentar a possibilidade do seu original ser lido, mandando as informações certas no e-mail que vai junto ao original.

Mande um bom pitch. Um pitch é quase uma sinopse, uma breve descrição da sua história, um parágrafo curto de duas ou três frases que contam sobre o que é o seu livro, o que ele tem de diferente de tudo o que já foi publicado e que deixe qualquer um morrendo de curiosidade para ler mais.

Se você contratou parecerista ou leitura crítica profissional, você pode incluir uma breve nota do parecerista. Mas só se for um profissional, nada de “o melhor livro de todos os tempos — minha mãe”.

Saiba se vender: Além do pitch, escreva também quem é você na fila do pão. Você já foi premiado em concursos literários sérios? Tem um canal no Youtube com vários assinantes? É dono do maior blog de ficção científica do Brasil? Descreva em duas ou três linhas como o seu perfil pode ajudar a vender o seu próprio livro. (Seja simples e sincero, se você não tem um público, não invente.)

Há quem consiga chamar a atenção das editoras enviando um plano de marketing e venda do próprio livro, o que pode ser uma estratégia interessante se você souber o que está fazendo. Se não souber, nem tente.

Pesquise sobre a editora. Cada editora tem uma linha de publicação, não adianta você mandar o seu original para uma editora que não trabalha com autores nacionais, ou mandar aquele romance de ficção científica para uma casa especializada em livros de casos jurídicos. Pesquise bem sobre a editora antes enviar o original, e de preferência tenha lido no mínimo um livro publicado por ela.

Saber o nome e perfil da pessoa responsável pela linha editorial também ajuda muito. Você pode acompanhar esta pessoa nas redes sociais, ler artigos que ela compartilha e assim começar a entender um pouco da sua linha de raciocínio. Se puder fazer cursos com editores (muitos dão cursos de edição e escrita), ou assistir a palestras, é um bom caminho.

Novamente, não seja uma DAQUELAS PESSOAS que mal conhecem a editora e já vão atirando o livro sobre ela. Sutileza é a chave aqui, se a pessoa souber que você escreve e se interessar, ela vai pedir para que você mande o original, e assim sua chance será muito maior.

Se parece muito trabalho, é porque é muito trabalho.

Não ignore editoras pequenas. Há quem diga que é melhor ser a estrela de uma pequena editora do que a ralé de uma grande. Se você vai começar a publicar, talvez valha a pena ficar de olho em editoras menores que estão interessadas no tipo de literatura que você produz. Primeiro, que a sua concorrência é menor. Segundo que uma editora pequena talvez tenha mais disposição em polir o seu texto antes de publicá-lo, o que resulta em um produto final de maior qualidade.

E sim, começar a conquistar o público com uma tiragem menor é um caminho bem interessante. Mais vale um autor que esgotou uma tiragem de quinhentos exemplares do que um com tiragem inicial de dez mil e apenas mil vendas. Seu sucesso (ou fracasso) inicial pode pavimentar (ou enterrar) a estrada para os próximos romances.

Algumas dicas finais: Não mande só metade do texto (a menos que a editora peça para que você só mande as páginas iniciais). Seja educado sempre. Não tenha pressa, a resposta vai demorar. Entenda que o poder de um autor já publicado dentro de uma editora é bastante limitado (não adianta entregar o seu livro para um escritor avaliar, quem faz isso é parecerista, e mesmo esse ainda tem que passar o seu projeto de livro por uma cadeia de aprovações internas caso esteja interessado em publicar).

Ah, mas o leitor beta/editor/agente vai roubar a minha ideia! Você não é a última bolacha do pacote e sua ideia nem é tão original assim (nem li e já sei disso). Mas você pode registrar o seu original na Biblioteca Nacional. É um documento simples que prova que você é autor da bagaça. Pronto. Mas ninguém tem nem tempo de roubar a sua ideia. Sério.

Por fim, a mesma regra de agentes vale para editoras. Cuidado com editoras picaretas. Como regra básica, se a editora cobra para publicar o seu livro ela não é uma editora, mas uma gráfica que presta serviços ao autor. Você pode contratá-la, mas saiba que o efeito é o mesmo de contratar profissionais de forma independente: no fim do processo você ainda vai ter um livro para vender e fazer toda a divulgação e plano de marketing (editoras que cobram para publicar não investem em divulgação e não fazem a distribuição. Mesmo se fizerem, não é como se o seu livro fosse vender sozinho apenas por estar ali na livraria). Falei um pouco mais sobre isso neste post.

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Minha cabeça está rodando, o que eu faço?

Faça uma planilha.

Sim! Não me venha com essa de “sou de humanas não sei fazer planilha”, porque você vai precisar de uma. A pesquisa vai ser longa e é melhor você começar a organizar as coisas desde cedo.

Você vai procurar agentes literários, editoras e concursos, não vai? Então nada melhor do que ir arrumando os dados em uma linda planilha. Escreva o nome da editora, algumas obras de destaque dela, qual o nome dos principais profissionais envolvidos, contatos, se possível pesquise também onde e quando essa editora estará em eventos. Faça isso para cada uma das editoras que talvez possa se interessar pelo seu livro e depois ordene tudo por prioridade, onde você vai investir o seu tempo primeiro.

O mesmo vale para agentes e concursos. Com todos esses dados em mãos você já terá uma ideia mais clara de por onde o seu original vai começar a circular. Vou tentar nessa editora primeiro, depois vou tentar entrar em contato com tal agente, se não der certo eu pego o prazo de tal concurso…

E já que estamos nesse assunto…

Submissões simultâneas: eu posso mandar para várias editoras ao mesmo tempo? Esse é um assunto delicado. A maioria das editoras e agentes dirá que não, você deve mandar para um veículo de cada vez.

Isso porque para um parecerista a leitura do seu original é trabalho. Imagine que ele leia e se interesse pelo seu original, e ao entrar em contato, o livro já está vendido para outra editora? Ele perdeu tempo e trabalho. Isso queima bastante a imagem de um autor em editoras.

Por outro lado, as editoras brasileiras não têm dado resposta aos autores, nem mesmo para rejeições, o que também complica o lado do autor, que fica com o texto “empacado” nessa avaliação. Acho que vale aí um bom senso. Você tem algum contato dentro da editora ou com o tal agente? Pergunte o prazo médio de avaliação. Caso contrário, depois de seis meses as chances de receber alguma resposta já é remota, e você já pode ir atrás da próxima editora da sua lista.

Cada caminho é diferente

Mas socorro, eu já tenho 21 anos e ainda não tenho nenhum livro publicado, o meu tempo está passando, ano que vem estarei velho demais para publicar! CALMA, FILHO! Há quem publique com vinte anos, há quem estreie com trinta, quarenta, cinquenta, e grandes talentos revelados naqueles concursos para aposentados.

Uma das coisas realmente difíceis em publicar um livro é que não existe um único caminho, uma receita de bolo. O que escrevi aqui são os caminhos mais tradicionais. Há vários outros, que dependem de contatos, do perfil do autor e muitas vezes de sorte. Sim, sorte. Por ter cruzado com a pessoa certa no evento certo, por ter sido lido por acaso por alguém que fez a ponte entre sua obra e a editora, por já ter alguma movimentação dentro do mercado.

Por isso o que você pode fazer para aumentar suas chances é aumentar sua circulação nesse meio. Como? Isso depende de cada um. Há quem comece um blog sobre literatura, há quem vá em todos os eventos e feiras para bater um papo com todo mundo. Ou quem participe ativamente em grupos online de escritores, quem tente comentar e ajudar um grande número de pessoas no Wattpad, enfim! São vários os caminhos que você pode traçar para conhecer mais gente do meio e aumentar as suas chances de ter sorte.

Claro, você pode receber uma abertura para enviar o original e ter uma obra de qualidade ruim. Ou, olhando por outro lado, se você fizer a lição de casa direitinho, é possível que a sua chance apareça. Pode levar dois anos, pode levar dez. Ou vinte. Nessa hora é bom você ter um baita livro nas mãos para não desperdiçar a oportunidade, porque elas são raras.

Dito isso, entenda que você dificilmente vai conseguir vender o seu primeiro livro. Eu sei, o primeiro é aquele que a gente se apega, a nossa grande obra! Pense nas artes plásticas. Quando foi que a grande obra de um artista foi sua primeira? As obras-primas vieram após anos de trabalho e esforço, às vezes no final da vida.

Por isso o melhor conselho para quem acabou de terminar um original é comece a escrever o próximo. A espera é angustiante, ela corrói por dentro, e nada melhor para se distrair dela do que “esquecer” aquela obra e partir para a próxima, que será melhor ainda. Repita isso várias vezes e você terá nas mãos um livro irrecusável. (E quando você conseguir um espaço no mercado e começar a publicar, você poderá retrabalhar aquelas primeiras. Ou descobrirá que foram bons degraus, mas que ainda não estavam prontas para a publicação).

O mercado editorial é um mercado lento. O livro publicado hoje às vezes foi escrito há cinco anos, foi comprado pela editora há dois e só agora está chegando à livraria. Mais do que paciência, você precisa escrever sempre. Se for esperar o primeiro chegar nas mãos dos leitores, você vai publicar o segundo o quê, depois de cinco anos parado? Não, assim enferruja!

Resumindo…

Terminou um monstrengo? É hora de enviar para os leitores beta, para leitura crítica e reescrever uma, duas, três vezes até ele virar um original.

Original em mãos? Corra para a boa e velha planilha. Pesquise o mercado, veja quais agentes, editoras e concursos poderão se interessar pela sua obra, ou estude qual o melhor meio de autopublicar.

Enquanto isso escreva o próximo. Frequente eventos e comunidades de escritores, seja legal, faça amigos. E principalmente, divirta-se.

Frase do dia: "Ser escritor é legal porque é como sempre ter lição de casa e então você morre." - @mariasherm

Foto: alicejamieson / greenkozi / betta design via Compfight cc

Published in Pensamentos no dia 7 de julho de 2016

4 Comments

  1. “eu tenho 21 anos e nenhum livro publicado” — muito boa! 🙂 mas sério, essa foi real ou ficção? Surreal!

  2. Patricia Patricia

    Muito bom post, adorei. Ri litros! Obrigada pelas sugestões.

  3. Minha comparação é mais ou menos assim: você compra arroz, feijão, sal, óleo, carne e legumes. Então, você paga para um cozinheiro preparar o seu almoço. Quando o almoço estiver pronto, você o compra, pagando ao cozinheiro um valor x.
    Muitas editoras fazem assim mesmo: você escreve seu livro e o envia para uma dessas “editoras”, que cobram pelos serviços editoriais. Depois, você tem que comprar seus próprios livros para você mesmo vender. E o pior é que os editores nem leem seu livro. Imagine então se eles vão perder tempo em revisá-lo. Eles só querem o seu dinheiro.
    O certo seria publicar livros em editoras tradicionais, que não cobram nada dos autores. Mas aí vem outro problema. Essas editoras, muitas vezes, só publicam livros de quem já é famoso, ou famosa, como se cada autor ou autora já nascesse famoso ou famosa, como herdeiros ou herdeiras do trono da Inglaterra…
    Se colocarmos em um carro todos os autores brasileiros que vivem exclusivamente de diretos autorais de seus livros, não conseguiremos encher nem um fusca…
    São os contrastes da cultura. Em muitos países, as pessoas publicam livros para ficarem famosas. No Brasil, as pessoas precisam ser famosas para publicar livros.
    Acho que é por isso que, no Brasil, um país com duzentos e treze milhões de habitantes, quando um livro vende dez mil exemplares é chamado de “best-seller”.
    Então, se você, autor iniciante, quiser ficar rico no Brasil escrevendo livros… procure outra profissão.

    • Olá, Sérgio!
      Existem editoras e editoras. Há muitas editoras que cobram para a publicação e são boas, e existem editoras picaretas. Por isso é muito importante conversar com autores que já foram publicados. Considero um erro jogar todas as editoras no mesmo saco. Agora, se colocarmos em um carro todos os autores brasileiros que vivem de direitos autorais, eu conheço alguns sim. É difícil? Sim, pra caramba. Mas é possível. E é preciso trabalhar muito. Agora, ficar rico? Quem disse ficar rico? A gente quer é escrever, ser lido, publicar, e, se possível, sobreviver.

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