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Como Voltar a Escrever

N.E. Este é um texto do convidado Enrico Tuosto:

Escrevi esse texto no fim de 2014 e consegui seguir meus próprios conselhos durante um tempo. Mas a vida passa. A vida muda. É novembro de 2016 e eu estou relendo o que escrevi, tentando aprender com meu eu de uns anos atrás. Vou dar uma chance para o que ele tem a dizer, mais uma vez.

Espero que essas palavras sirvam de ajuda para aqueles que querem voltar a escrever, seja em qual ano for. 🙂


2014 foi o primeiro ano que defini como meta melhorar a minha escrita. Com isso, surgiu uma promessa de ano novo no final de 2013: escrever todos os dias. E, como toda boa promessa de ano novo, esta não foi cumprida. Mas eu acho que sei porquê.

Minha meta começou com 250 palavras por dia, que logo se tornaram 750. Escrevi todos os dias por mais de três meses, numa média de um conto por semana. Quebrei a promessa pela primeira vez num dia que não tive oportunidade de sentar e escrever (motivo: causas naturais, eventualidades da vida). Retomar o hábito da escrita foi fácil nesta primeira vez. Mas surgiram mais dias que não tive oportunidade de escrever. E depois mais outros.

Comecei a ficar incomodado, preocupado que a quebra constante da prática diária roubasse minha desenvoltura com as palavras.

A cada dia que minha constância era interrompida, tirar as palavras da minha cabeça e colocá-las no papel parecia mais difícil. Encarar a página em branco se transformou num fardo.

Então eu atingi um ponto de ruptura: travei completamente numa história (que, na minha cabeça, seria um livro). E travei em todas as histórias que tentei começar ou continuar depois dessa. Passei semanas seguidas sem escrever.

Foi aí que percebi a raiz do problema: minha promessa (e minha incapacidade de mantê-la) me fez criar uma expectativa tremenda diante da escrita. Transformei algo que deveria ser prazeroso numa espécie de provação. Como um pai que deseja tanto o sucesso do filho e que acaba criando um monte de cobranças na mente do garoto.

Só agora neste último mês do ano consegui retomar o hábito de escrever de forma consistente e prazerosa. Como pretendo reformular a resolução para 2015, e sei que muitos escritores (e aspirantes) farão promessas parecidas, deixo algumas dicas para você não se frustrar como eu me frustrei:

– Não importa quantas palavras você escreve por dia
A cobrança por um mínimo de palavras vai te desanimar naqueles dias extremamente atarefados. Comprometer-se com um mínimo de palavras só é útil quando você não está nem um pouco acostumado com o hábito da escrita e precisa entrar no ritmo. Depois de acostumado, pare de se cobrar. O número que você deseja vai acontecer sem que você precise brigar com as palavras.

– Não estipule um horário, apenas um período de tempo
Nem sempre você consegue estar diante da tela em branco no horário marcado. É mais fácil separar um período de tempo, e não um horário. Esse conselho é extremamente válido para quem possui uma rotina de horários irregulares.

– Mantenha outro hábito diário (ou quase diário) em conjunto com a escrita
Minha escrita gera muito mais frutos nos períodos que consigo manter o hábito de me exercitar. Pode ser que a sua funcione melhor com algum hábito complementar (seja ele qual for).

– Não pense no que você deseja de cada história  —  deixe-as livres para crescer
Aquele tal “livro” que eu estava escrevendo tornou-se um conto. Um bom conto.

– Relaxe mais
Tente não deixar a inevitável inquietação da sua mente de escritor te travar. Se você estiver trabalhando na sua escrita todos os dias, palavra por palavra, não existe motivo para inquietação.

Se eu for arriscar uma nova resolução de ano novo para 2015, será a seguinte: aparecer para escrever todos os dias. Não importa se vou escrever alguma palavra ou não, me preocuparei apenas em estar lá.

Não vou cobrar muito das minhas histórias, e espero que elas cobrem menos de mim também. Mas vou estar lá para elas. Todos os dias. Estarei presente, e isso basta.


Texto original publicado em 21 de dezembro de 2014.

Enrico Tuosto é escritor, revisor da revista Trasgo e rockstar fracassado. Também cuida das redes sociais e da newsletter da Trasgo, mas o que ele gosta mesmo de fazer é jogar RPG. enricotuosto.tumblr.com

Frase do dia: “Devemos pegar nossas armas a cada dia e todos os dias, talvez sabendo que, se a batalha não pode ser completamente ganha, devemos lutar; ainda que desferindo golpes leves.” — Ray Bradbury, O Zen e a Arte da Escrita

Foto: Duncan Rawlinson - Duncan.co - @thelastminute Flickr via Compfight cc

Postado em Convidados no dia 19 de novembro de 2016

2 Comentários

  1. Enrico, acho que seu texto deve ser lido por nós escritores sempre. “Não se cobrar tanto”, “não tentar ser perfeito”, “se divertir ao escrever”, é isso que eu também esqueço. É importante relembrar.

    Eu, às vezes, travo na escrita quando quero que o texto já nasça inteiro e perfeito. Agora, estou tentando colocar no papel o que tenho em mente, e depois rechear de detalhes, criar conexões etc. Como um bolo de camadas, ou, como diz Shrek, uma cebola.

    • Obrigado pelo comentário, Érica!
      Sim, é sempre bom lembrar que a escrita é, primeiramente, uma diversão. Essa metáfora do bolo de camadas é boa — enfatiza que escrever é um processo como cozinhar, leva tempo e requer atenção.

      Te desejo boa sorte com a escrita. 🙂
      Forte abraço,

      Enrico

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