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Das Olimpíadas ao Duplipensar

Então que alguém compartilhou uma foto da abertura das Olimpíadas de 1936 em Berlim, com a frase “ah, mas a festa foi tão bonita…” Além de provavelmente bater o recorde olímpico da Lei de Godwin, o “argumento” me deixou mastigando esse assunto por alguns dias. Cá estão minhas ruminações.

Eu assisti a abertura dos Jogos Olímpicos com um olho na TV, outro no Twitter (já que os comentários na rede do passarinho são infinitamente melhores) e gostei do que vi. A festa foi bonita. Teve coisas incríveis e teve empoderamento.

Agora, dizer que eu gostei da abertura não é dizer que eu estou plenamente feliz e satisfeito das Olimpíadas serem realizadas no Brasil. Achar que foi bacana passar a mensagem sobre aquecimento global e preservação dos recursos naturais não significa que eu esqueci que o Rio sequer despoluiu a Baía de Guanabara, uma das promessas da candidatura.

Achar incrível e aplaudir em pé uma cerimônia com Anitta, Elza Soares, Karol Conka, McSofia, Ludmilla e outras mulheres não me faz hipócrita por estar sob um governo incapaz de escolher uma única mulher para um ministério e colocar em pauta sérios retrocessos à causa feminista.

A cerimônia teve empoderamento, teve pessoas trans puxando as bicicletas das delegações, teve Andrucha Waddington, Daniela Thomas e Deborah Colker na direção. Mas teve o tal “presidente interino” falando no microfone, faltou representar melhor as várias culturas indígenas, teve todos os clichês nacionais, do bom ao “ruim”. Ter gostado ou não da abertura dos jogos não me faz mais ou menos patriota, político ou informado.

Os jogos começaram e a complexidade só continuou. Teve Rafaela Silva ganhando ouro no judô, uma atleta da Cidade de Deus beneficiada por um projeto social. O esporte muda e revoluciona vidas. As Olimpíadas do Rio trouxeram prejuízos a populações marginalizadas que moravam próximas à vila olímpica. As duas afirmações são verdadeiras.

Teve Marjorie Enya pedindo em casamento a atleta do rugby nacional Isadora Cerullo, numa cena linda e emocionante, e teve torcida gritando “bicha” em jogo de futebol. As duas afirmações são verdadeiras.

Ambas as afirmações são verdadeiras

Entende onde quero chegar? O pensamento dicotômico (ou isso ou aquilo) é fácil, é simplista, mas ele não dá conta da complexidade do mundo real. Sim, você pode gostar dos jogos olímpicos e se preocupar com o fato de que a força nacional está expulsando torcedores que se manifestam contra o golpe. Você pode achar que o esporte é imprescindível para o bem estar social, que as olimpíadas são uma festa bonita, e que o dinheiro seria mais bem gasto em projetos sociais ou na construção de um hospital.

Parece que somos cada vez menos capazes de conciliar pensamentos divergentes numa mesma cachola. Às vezes buscamos um meio termo. E às vezes é necessário fazer malabares mentais para tentar acomodar dois pensamentos que a princípio parecem opostos, mas que na verdade só são um pouco mais complexos do que queremos nos aprofundar.

Questões profundas da construção da nossa identidade nacional como o racismo, a escravidão, o patriarcado, o machismo e a homofobia não vão ser resolvidas com pensamento simplista. A gente vai precisar de mais “depende” e menos certezas.

O pensamento dicotômico gera bizarrices como o Escola Sem Partido, que pune o professor que apresentar diferentes visões para um mesmo assunto (já que, segundo o jênio que produziu o texto da lei, uma das visões seria partidária e outra “““neutra”””). O pensamento dicotômico gera slogans como “Brasil: Ame-o ou Deixe-o”, veiculado você-sabe-quando no Brasil.

Nem precisamos ir tão longe. A dicotomia invadiu a cultura pop de maneira arrebatadora. Ou é o melhor filme de todos os tempos, ou todos os envolvidos deveriam ser atirados num poço de piche!!!! Com várias exclamações!!!1!! Se você gostou de tal filme você é um machista, racista, homofóbico! Se você não gostou daquele outro também!

CALMA, GENTE!

É possível gostar de um filme pipocão e admitir que ele tem sérios problemas de representatividade. É possível se emocionar com um filme sobre a causa trans e admitir a que a escolha de um ator cis não caiu bem.

Representatividade e diversidade, como disse Eric Novello no Encontro Irradiativo. Precisamos de ambos. Precisamos que as populações negra, LGBT e minorias sejam mais representadas por quem já tem acesso aos meios, e ao mesmo tempo precisamos que essas próprias pessoas contem as suas histórias. Uma coisa não exclui a outra. Num mundo ideal, uma coisa leva à outra.

Ou isso ou aquilo = manipulação

Se você não entendeu ainda, discutir não é brigar e problematizar não é odiar.

O pensamento dicotômico simplista é muito manipulável. O golpe midiático que derrubou a Dilma e o espetáculo que criou o Brexit são provas disso. Se Dilma tinha uma péssima atuação no governo, isso não significa que ela deva sofrer um impeachment (ou golpe). É preciso mais que dois neurônios para consolidar esse pensamento na cabeça.

George Orwell encontrou na linguagem a solução central para a distopia em 1984. O duplipensar representava o ápice do pensamento dicotômico. “Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força.” Lidar apenas com extremos é confortável. Agora, encontrar paralelos, meios-termos e dependes exige que paremos mais que dois segundos para entender e acomodar verdades desconfortáveis e complexas. Mais tempo do que o necessário para um curtir e compartilhar.

No livro publicado em 1948 o Grande Irmão vigiava seus compatriotas por telas de TV. Imagino o que Orwell pensaria sobre o Facebook.

ATUALIZAÇÃO: Hoje a BBC Brasil publicou essa matéria linda: Quatro maneiras de usar a vitória de Rafaela Silva para confirmar o que você já pensa

Frase do dia: "Nossos clichês nunca foram tão bem editados" - @rbressane

Postado em Pensamentos no dia 9 de agosto de 2016

Um Comentário

  1. Aurel Lujan

    Aurel Lujan

    Comparto. Muito bom texto, fácil e profundo.

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