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Então, você tem uma ideia?

Uma das coisas que você mais ouve quando se assume como "escritor" perante o mundo é que todo mundo tem ideias. Desde a cabelereira da esquina ao rapaz que assa o frango no açougue, todos têm na cabeça uma história que daria um bom filme. A segunda coisa que ouve é "você deveria escrever sobre isso".

Acontece que uma ideia é apenas um ingrediente da receita. Você quer fazer um pão? Você vai precisar de farinha, água, ovos, leite, sal, açúcar e fermento. A ideia é só o fermento. Você pode ter um quilo dele sobre a sua mesa, mas não terá um pão se não misturar tudo, amassar, apertar, cansar os bracinhos.

Você consegue fazer pão sem fermento, só com as bactérias (e ideias) presentes no ar. Mas não dá para transformar ingredientes em pão sem trabalhar nisso.

Fábio Yabu escreveu em 2012 um pequeno texto bastante esclarecedor chamado "Teve uma ideia? Problema seu!", onde declara: Uma ideia é um problema disfarçado de solução.

Não cabem adjetivos numa ideia, simplesmente por não existir ideia boa ou ruim. Ter uma ideia é como fazer a matrícula numa academia. É algo totalmente isento de valor. Quando você se matricula, pode até pedir que alguém te acompanhe durante os treinos. Mas o ato de ir – e continuar frequentando – é algo que só você pode fazer. Não há glória, não há vitória, não há nada enquanto não houver execução, frequência e disciplina empregados diariamente.

Deixe-me expandir um pouquinho essa relação entre ideia e problema. Há pouco, quando comecei a falar do Banco de Fornecedores para Autopublicação, muita gente comentou "puxa, que ideia ótima". Acontece que isso nunca foi uma ideia, e sim um problema. Veja bem, eu estou pensando em autopublicar uma obra, mas estava com um problema: não conseguia encontrar certos fornecedores. A solução mais óbvia é fazer uma lista. Ta-dam!

Ou a Trasgo, que nunca foi uma ideia original. O próprio formato foi copiado da Lightspeed Magazine, nunca escondi isso. Eu só queria que houvesse no Brasil uma revista como essas que existem lá fora, em português. Como não havia nada… Ta-dam!

Vejo, principalmente em autores mais novos, uma preocupação exagerada com a ideia, com a originalidade. Mas quanto mais você lê, mais você percebe que não existe isso de ideia original. É o jeito que as suas referências se conectam às suas próprias vivências que traz frescor à obra, não a busca por algo mirabolante totalmente fora da sua realidade.

Ou seja, execução. Aí que está o segredo. Ao contrário da parte "ter ideias", que é mágica e mirabolante, a execução é chata, repetitiva. Você precisa ficar batendo em teclas, compondo frase atrás de frase atrás de frase. Se tantos escritores têm métodos e sistemas para que o seu processo criativo flua de modo bacana, é porque precisam disso para lidar com a monotonia inerente a qualquer execução. Sim, há fagulhas de empolgação escondidas nos canto dos parágrafos, e nós as consumimos como viciados em crack, sempre em busca do próximo jogo de palavras e seu pequeno barato.

Mas o dia a dia é sentar a bunda na cadeira e colocar uma palavra atrás da outra. Ou um traço depois do outro. Gravar o mesmo take trinta vezes. E algumas pessoas se ofendem quando não valorizamos as suas ideias. "Bacana! Escreve, depois me mostra."

"Trabalho" é o preço que você paga para trazer as ideias ao mundo real.

A vontade que a Trasgo existisse era tamanha que investi tempo, trabalho e dinheiro para puxá-la do etéreo para o mundo real.

Para finalizar este artigo, e também para provar que eu não acho que ideia vale muita coisa, vou dar uma para vocês. Sim, de graça!

Um problema para vocês: revista de contos seriados

Ok, confesso. Isso é algo que eu estava estruturando na minha cachola para tornar realidade. Mas quando percebi o tamanho do trabalho e investimento que será necessário para fazer essa ideia vingar, percebi que eu não poderei executar isso sem prejudicar algum dos projetos já em andamento, como a Trasgo, o Viver da Escrita ou outras coisas que faço.

Então, como um garotinho segurando um balão, estou entregando a cordinha para vocês, na esperança de alguém puxe o fio e traga isso para a realidade. Porque seria legal pra caramba, como seria!

A ideia é uma revista de contos, que, diferente da Trasgo, traz somente contos seriados (em capítulos, o famigerado folhetim). Mensal. Cada edição continua os contos começados na edição anterior. Quando se encerra uma história, depois de seis, oito ou dez edições, começa um novo, talvez de um novo autor, e assim se caminha.

Ou, em vez do formato de revista, por que não um site? Ou ambas as opções: um site, mas você pode baixar os epubs! Vi várias iniciativas bacanas no segmento de quadrinhos nesse formato, falta alguém criar algo assim para contos. E no final, por que não, fechar os contos em livros.

Mas Rodrigo, o Wattpad… Ok, sei. Mas não. A ideia de ser "uma revista" ou "um site" ou do que você quiser chamar é poder contar com curadoria e revisão. Sejamos honestos, há muita coisa de baixa qualidade sendo publicada por aí. Como você escolhe e encontra o que é bom?

Oh, mas quem assumiria esse papel de editar os contos? Calma, pensei nisso também. Ainda precisaremos de uma editora-chefe, mas ela teria menos trabalho. Muita gente aparece como voluntário na Trasgo, querendo ajudar. "Posso revisar, posso editar, posso avaliar, ilustrar?" Não temos espaço para essas pessoas, o fluxo de trabalho é meio caótico. Então essa revista de contos seriados traria algo diferente que poderia incluir muito mais gente: as inscrições seriam por equipes!

Sim! Para se inscrever, você precisaria ter: Autora da obra + Editora da obra + Ilustradora. Uma pessoa escreve, outra edita, outra faz umas capas bacanas para cada episódio. Legal, não?

Mas eu não conheço ninguém para editar! Então a própria revista (acho que precisamos de um nome para ela, não? Episódica! Sim, esse vai ser o nome dela, por enquanto) teria um cadastro de indivíduos. Por exemplo, eu entraria somente como editor, aí a Episódica me apontaria um texto para editar. O mesmo para ilustração. Ajudaria um povo a criar experiência e portfolio.

Se houvesse algo assim no mercado brasileiro seria TÃO LEGAL… Eu queria poder viabilizar, mas não vou ter tempo para executar isso. A Trasgo está atrasada, para vocês terem uma ideia. Então cá estou assoprando isso para vocês. Vai que alguma doida aparece para executar essa ideia? Se alguém resolver fazer isso, eu prometo que dou um anúncio de graça da Trasgo e divulgo como um maluco!

Esse é o meu balão. Tó a cordinha. Alguém quer?

Frase do dia: Sou feeeeliz, por isso estooou aqui. Também quero viajar nesse balão!

Foto: Josep Castell via Compfight cc

Postado em Pensamentos no dia 20 de abril de 2016

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