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Impressões sobre o NaNoWriMo: Acabou novembro (finalmente!)

O NaNoWriMo (National Novel Writing Month) é uma comunidade de escritores que se propõem a escrever um livro durante o mês de novembro. A meta é de 50 mil palavras, distribuída em sessões diárias para dar conta do tamanho do trem.

Nunca participei a sério do evento, mas este ano resolvi tentar algo esse mês: um microconto por dia. Tenho um projeto de microcontos inspirados por fotografias que um amigo, Allan Nucci, tirou quando morava na Irlanda.

Comecei por graça, há alguns anos. Escrevia de vez em quando e fui juntando tudo num Tumblr chamado “A Outra Irlanda“. Queria explorar ideias diferentes, testar quantas palavras são necessárias para escrever um conceito com começo, meio e fim, que deixe o leitor apaixonado, ou com um sabor amargo na boca, ou refletindo sobre as coisas.

 

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Era um domingo de céu branco, a praça estava vazia. Olhou para as árvores, a rua, a família que caminhava tranquila. Era bom estar de volta. Ali havia cheiros. Jasmim, ou talvez limão, ou xampu de cachorro. Tudo misturado, imperfeito. Apegava-se ao olfato para não enlouquecer. Na simulação os cheiros eram simples; ou isso, ou aquilo. O céu era azul, ou tinha nuvens, ou chuva. Nunca branco. Branco pareceria bug no sistema.

Às vezes assustava-se com o jeito que uma árvore parecia cortar o sol, ou com um reflexo estranho no pavimento. Mas a realidade é imperfeita, lembrava-se. Estava de volta; aqui havia muitos cheiros. E quando a agonia parecia apertar, buscava conforto nas palavras de um grande amigo: “Talvez eu não exista. Nem você. Mas eu não preciso ser real para ser feliz.”

 

Então, NaNoWriMo. Um por dia. Vamos lá.

Comecei bem, com ritmo. Um por dia. Até que, numa sexta-feira que não estava em casa, acabei passando. Tentei escrever dois para compensar, mas não consegui. Bora para o dia seguinte.

Aos poucos, a diversão de pensar em um novo microconto a cada dia foi tornando-se um desafio. Como não repetir temas? Como não cair em clichês, em finais fáceis, em ideias prontas?

Lá pelo final da terceira semana, escrever estava difícil, consumia muita energia, como se minhas engrenagens não estivessem funcionando. Então, desisti. “Chega, hoje não vai ter”. No dia seguinte, o ânimo estava um pouco melhor e vamos lá.

No último dia de novembro, a sensação era de alívio. A “obrigação” de escrever um microconto novo por dia é bastante cansativa, como disse o Enrico Tuosto no artigo anterior.

Ao contrário de escrever uma obra mais longa, ou até trabalhar em um conto, o maior desafio de escrever algo curto todos os dias é encontrar sempre uma página em branco. Começar. E começar é muito difícil. Quando estou trabalhando em um romance, eu tenho uma linha guia, eu tenho as cenas anteriores. Agora, com A Outra Irlanda, cada microconto é um universo.

Resultado: terminei novembro com 22 novos microcontos. Pouco menos do que os 30 que eu gostaria, mas foram os que consegui escrever, considerando freelas atrasados, Trasgo, oficina de escrita e trocas de fraldas.

 

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O menino abriu as asas pela primeira vez. A garça fez um movimento de aprovação com o bico. Testou os músculos que não tinha até minutos atrás. “E se não der certo?”, perguntou, olhando as pessoinhas, carros e telhados lá embaixo. “O que tem a perder?”, perguntou a ave. Ele respirou fundo, lembrando-se de tudo que o levara àquele parapeito. O chão era opção melhor. Ou…

Deixou o corpo tombar para frente, sentindo o corpo planar nas correntes. Bateu as asas uma, duas vezes, até pegar o jeito. “Vem”, disse a garça, apontando o caminho.

 

Esses textinhos totalizam pouco menos de 4000 palavras. É engraçado pensar que isso daria apenas dois dias de escrita longa pelas regras do NaNoWriMo. Mas o microconto é outro jogo. Em vez de escrever e escrever como um maluco, você pensa em cada palavra. Reescreve. Troca. Pega aquela ideia de duas frases e coloca em três palavras muito bem posicionadas. Você enxuga ao máximo, depois acrescenta uma sujeirinha para dar ritmo.

Também tenho alguns truques que desenvolvi desde que comecei a escrevê-los. Um deles é olhar para a foto e procurar os personagens que não estão lá. A foto é de um telhado? Quem está nesse telhado? O que essa pessoa busca? Trabalhar com não-humanos também abre uma série de possibilidades. Há uma guerra lá fora? As criaturas vivem na mesma dimensão dos humanos? Onde ficam os portais?

Cada microconto costuma me levar de meia a uma hora de escrita e o mesmo período de revisão (tentava escrever pela manhã e publicar à tarde). Quando estou trabalhando em um romance, esse é o tempo que levo para produzir cerca de mil palavras. Teria sido um mês de vinte mil palavras, o que é bem a minha média de escrita.

Mas finalmente acabou novembro. Vou dar um tempo nos microcontos e voltar a um romance que comecei há cinco meses, antes de minha filha nascer. Mal posso esperar para reencontrar aqueles personagens!

Leia os microcontos do A Outra Irlanda.

Frase do dia: “É mais fácil ser mortal”, respondeu o anjo, coçando a ponta da asa numa estátua. Observavam o corre-corre das seis da tarde, o trânsito caótico de pessoas, carros e gnomos. “Olhe para eles. Condenados, sempre fugindo. Eles podem sentir a areia deslizando na ampulheta”.

Foto: Allan Nucci

Published in Literatura no dia 4 de dezembro de 2016

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