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O português está sendo invadido?

A língua é talvez o maior patrimônio imaterial de um povo. É o símbolo que familiariza indivíduos, que une grupos, que carrega nossa história. Mas a mesma língua que aproxima pode ser uma barreira, um muro invisível que reforça ainda mais os preconceitos da sociedade. Como acompanhar a evolução do idioma, sem perder a identidade no processo? Talvez nem mesmo precisemos fazer nada.

Essa é a descrição do primeiro episódio de Vida Sonora, um novo podcast, por Igor Rodrigues e Bruno Assis. Trata-se de um projeto que pretende contar histórias sobre muitas coisas. E se você quer trabalhar com escrita, é bom ficar de ouvido atento no que esses dois estão aprontando, já que no Brasil temos pouca coisa em storytelling. Outro podcast bacana sobre o assunto é o Projeto Humanos, por Ivan Mizanzuk, que está em pausa entre as seasons.

Ok, espera um pouco. Podcast? Storytelling? Seasons? Precisa disso aí mesmo? Então, é justamente sobre isso o episódio piloto do Vida Sonora, “A língua que falamos”. Não vou repetir tudo o que disseram, vai ouvir que vale muito a pena, mas destaco alguns conceitos que ficaram na cabeça.

Primeiro, que apenas 5% dos brasileiros falam inglês. Se você usa estrangeirismos no seu texto, você está excluindo 95% das pessoas? Sim e não. Há um ruído na comunicação, um estranhamento, mas isso faz parte do processo natural de evolução de qualquer língua. Um estrangeirismo não vai impedir a comunicação, mas pode atrapalhar.

A melhor cena do podcast é quando Igor coloca sua mãe para olhar a página inicial do Submarino, perguntando o que significam algumas palavras na página de um dos principais comércios online do país. Revelador.

A partir daí o programa segue com entrevistas que demonstram que muitas das expressões e palavras que usamos rotineiramente em português vieram de fora, e que esse cabo de guerra faz parte do processo de construção de qualquer língua. Agora vamos deixar o programa um pouco de lado e falar de comunicação. Se você escreve, quer ser entendido pelo seu público, certo? Então para quê usar expressões estrangeiras?

Porque a maior parte dessas expressões é, na verdade, um bordão. Um diálogo de algum filme da cultura pop, a frase de um personagem, a declaração que escapuliu de algum famoso. São bordões, e como tais, só fazem sentido na exata configuração original, é impossível traduzí-los sem perder parte de sua força.

Nós usamos bordões para estabelecer uma relação de proximidade com o nosso leitor. Usar uma expressão reconhecida, é como mostrar “olha, você e eu somos parte do mesmo grupo”, você delimita algo em comum, melhora o carisma do texto e pode deixá-lo até mais leve e divertido. C’est la vie… (Assim é a vida…)

Uma prova disso é que grupos fechados ao redor de um tema (fandons, por exemplo) parecem ter uma linguagem própria, estranha a qualquer um não familiarizado com o tema.

Algumas palavras realmente não têm tradução. São poucas. Podcasts é uma delas. Há longos artigos comentando sobre a problemática desse termo, se isso atrapalha sua adoção de massa. Enquanto muita gente sabe o que é um vídeo no Youtube, o podcast ainda é coisa de nicho. São programas em áudio com frequência delimitada (semanal, mensal), que podem ser baixados e ouvidos, como se fosse um programa de rádio.

Outras palavras podem ser usadas em português sem perder nada no texto. Uma mania minha é usar whatever, em trechos onde eu muito bem poderia usar que seja. Ou wow onde um uau caberia muito melhor. Seasons? Isso é coisa de quem assiste seriado demais, melhor dizer temporadas mesmo.

Algumas palavras têm significados diferentes em línguas diferentes. Storytelling, por exemplo, é considerada uma área de estudo e formatos de narrativas lá fora, mas aqui, se traduzirmos como contação de história, adquire um escopo muito limitado. Chamamos storytelling toda a área da redação publicitária, jornalismo e roteirização que tenta contar histórias, seja de empresas, de pessoas, de regiões, de coisas, de fatos, que são organizados como uma boa prosa, em vez de algo mais frio, técnico ou acadêmico. Se você trabalha com conteúdo, é bom se familiarizar com o conceito de storytelling, para ontem!

Afinal, usar ou não usar estrangeirismos?

Oras, o texto é seu e você decide! Mas eu tenho prestado mais atenção às minhas palavras desde que ouvi aquele episódio, e decidi alguns parâmetros que funcionam para mim. Talvez ajudem.

Em comunicações pessoais, eu realmente não me importo. Boa parte de meus amigos falam inglês, e aqueles que não falam perguntam. Faz parte do sentimento de pertencimento de qualquer grupo a troca de expressões, gírias e bordões internos.

Em textos públicos, como o Viver da Escrita, tenho tomado mais cuidado. Como o objetivo é chegar ao maior número de pessoas, eu ganho pouco ao utilizar expressões estrangeiras. Às vezes vale, e tenho colocado algum tipo de tradução quando cabe. Como no último artigo, onde precisei utilizar uma citação em inglês.

Tem a newsletter também. Aliás, o próprio termo newsletter é um daqueles complicados, onde as traduções para o português mais confundem do que ajudam. Lista de e-mails? Notícias por e-mail? Assinatura via e-mail? Cartas?

Muito do que leio de dicas de escrita são de blogs em inglês. Isso porque a maior parte de tudo o que é escrito na internet é nesta língua, e em português são poucas as fontes que falam do assunto. Não deixarei de colocar os melhores links apenas porque estão em outras línguas. Assim, a decisão fica para o leitor. Alguns não têm dificuldade alguma. Outros usam traduções automáticas, que, ainda que não funcionem perfeitamente, quebram um bom galho. E outros preferem deixar esses links para lá. Por isso tomo o cuidado de não selecionar apenas artigos estrangeiros, tem sempre uma parte do conteúdo nacional. (Também para prestigiar criadores de conteúdo daqui.)

Mas tem um cuidado: o título é sempre o título original da matéria. Se o título está em inglês, o leitor pode esperar um texto em inglês. Se o título é em português, bem, isso facilita.

Não existe uma regra simples, faça isso ou faça aquilo. Há vantagens e desvantagens de utilizar expressões, links, bordões e gírias importadas de outras línguas. Mas vale ouvir o primeiro episódio do Vida Sonora e tirar suas próprias conclusões.

O importante é que você perceba de forma consciente quando está utilizando expressões alheias ao nosso idioma, refletir um pouquinho sobre qual a sua intenção com elas, para então decidir se vai mantê-las, se vai manter e traduzir, ou trocar por outra coisa.

Frase do dia: Não existe na língua portuguesa três palavras mais sonoras do que "Amor, fiz brigadeiro".

Foto: jainaj via Compfight cc

Postado em Redação no dia 1 de dezembro de 2015

2 Comentários

    • É, Noris, esse dado me assustou também. Por isso estou me policiando mais e tentando traduzir uma coisinha ou outra… O.O

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