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O que é um conto?

Outro dia um amigo estava me perguntando sobre contos. Mais especificamente, se eu tinha alguma dica para escrevê-los, já que um conto não é um romance em miniatura. O conto é um monstro particular.

Vamos começar pela definição mais utilizada na literatura em língua inglesa, que se prende ao número de palavras (critério utilizado também pela revista Trasgo).

Flash Fiction – 100 a 2.500 palavras
Conto – 2.000 a 7.500 palavras
Noveleta – 7.500 a 17.500 palavras
Novela – 17.500 a 40.000 palavras
Romance – Acima de 40.000 palavras

Essa definição é adotada pelo “The Science Fiction and Fantasy Writers of America”, responsável pelo prêmio Nebula (com a diferença que o prêmio considera “conto” obras com até 7.500 palavras, ignorando o Flash Fiction). Aí já temos a primeira confusão. Flash Fiction é conto?

Vamos complicar ainda mais: na tradição latina, a definição de conto se dá pelo conteúdo: seria a obra literária com um único núcleo e único clímax, ou seja, uma narrativa fechada que não explora conflitos secundários.

Certo… Então temos aquela velha dúvida: o conto é um “pedaço” de um romance? E assim entramos no território do “pode ser, não sei, depende.”

Como qualquer narrativa, alguns elementos básicos são necessários: personagens, um conflito e uma resolução (sim, escritores experientes podem fazer funcionar um conto sem um desses elementos, mas vamos deixar isso aos profissionais).

Com a restrição de espaço, duas coisas são fundamentais: o começo e o fim. Ou melhor, o gancho e a entrega. Já falei um pouco sobre o primeiro no artigo “O que está em jogo?“, então vamos para a resolução.

A falta de uma resolução adequada é o motivo pelo qual um capítulo de livro nem sempre funciona como um bom conto. Mas o que é “resolver”? Depende do conflito que você apresenta. Quando eu digo “resolver” o conflito, não significa um “e eles viveram felizes para sempre”. É mostrar que sua história evoluiu, a personagem não está mais no mesmo ponto em que começou, e que a história foi cortada em um ponto interessante (ok, muitos contos de viagem no tempo terminam no ponto em que começaram, mas depois de toda uma volta).

Há quem diga que escrever um conto é contar uma piada. O final precisa ter impacto e ficar na cabeça do leitor. PORÉM… nem sempre. Mas precisa entregar. Entregar o quê? A promessa que você fez no começo da história. Veja bem, todo bom começo contém uma promessa escondida. Vou te contar como foi que o gnomo venceu o grande dragão. Vou te contar como eu me enfiei nesse buraco (e como eu vou sair dele). Vou te contar como foi que a princesa fugiu dos alienígenas. Fique comigo, você vai se emocionar, vai rir, chorar ou se assustar. Essa é a promessa, escondida nas entrelinhas.

Mas então caímos em outro clichê das oficinas de escrita: quando o seu final soa estranho, talvez o problema não esteja no final, mas na definição e apresentação do conflito lá atrás. Olha, algo tem que acontecer, mudar. Ou fica aquela dúvida, “mas por que você quis me contar essa história?”

O final nunca é fácil de executar, até porque muitos contos não terminam felizes. Há arcos em que o protagonista arruma ainda mais problemas e vai parar num lugar ainda pior. Agora, o corte precisa fazer sentido. Por exemplo, você apresenta a preparação do herói para a jornada, ele sai da vila, enfrenta a viagem e chega ao destino, onde enfrentará o grande monstro. E acaba. Um corte mais interessante seria ele chegar ao destino, enfrentar o monstro e descobrir algo. Ou, se a ideia é a jornada, o monstro se torna pano de fundo, o que nos interessa no conto é algo que acontece durante o trajeto.

Nós chamamos isso de recorte. O que entra e o que fica fora da sua narrativa? Existem vários: temporal, espacial e de ponto de vista, por exemplo. Como qualquer editor, eu vou dizer para você deixar o essencial dentro do recorte, o resto fica fora. A parte da infância do herói? Fora. Ele pegando a mochila e se despedindo dos familiares? Fora. Ele olhando para trás para dizer adeus à aldeia? Fora. Ele de frente para a nave espacial na clareira? Opa, aí começa a ficar interessante (às vezes, o resto pode entrar como flashback, ou em pequenos trechos de memória).

Nos contos, o recorte é importantíssimo. Uma boa seleção de cenas faz milagres. É comum pecar por tentar mostrar demais do que de menos. Confie no leitor, deixe as lacunas (acredite, ele as preencherá com criatividade).

O conto é um formato aberto a experiências

O investimento necessário em um conto é menor do que em um romance, por exemplo. Isso vale tanto para quem escreve, quanto para o leitor. Por isso o formato é convidativo a experimentações, no qual ponto de vista, estilo de narração, malabarismos linguísticos e formatos inusitados ganham espaço.

Sempre recomendamos começar na arte da escrita por contos. Antes de propor um romance de quinze livros, use o tamanho restrito para aprender a desenvolver a própria voz, abrir e fechar conflitos, trabalhar com diálogos e, principalmente, cortar os excessos.

Algumas estruturas acabam aparecendo com certa frequência nos contos:

Aventura curta (minijornada do herói): Essa é a estrutura mais clássica em contos de fantasia, trata-se de uma versão abreviada da história de jornada. Ex: O Vento do Oeste.

Mood piece (texto de clima): É quando o clima da história ganha quase tanta importância quanto o próprio texto. Requer um belo trabalho de linguagem, mas pode gerar peças memoráveis. Ex: Um Ladrão de Cores.

Fix-up: Geralmente usamos o termo fix-up quando falamos de um romance composto por vários contos. No nosso caso, é um conto formado por pequenas cenas aparentemente desconexas que se interligam formando uma história. Ex: Isso é tudo, pessoal.

Outra forma de ver o conto é explorar gêneros literários dentro do conto. Alguns exemplos, escolhidos ao acaso:

História de portal: No Labirinto
Noir / Policial: Sardas e Manchas de Sangue
Humor: Invasão
Romance: Sobre o Ar e o Fogo
Space Opera: Cada Um Com Seus Problemas
Steampunk: Ventania
Capa e espada: Eles Também nos Vigiam
Horror: Azul
New Weird: Os Delírios Atômicos do Professor Freund
Pós-apocalipse: Ruínas no Horizonte
Militar: Cão 1 está desaparecido

No fim a graça do conto é que ele pode ser qualquer coisa. Como um motor de velocidade FTL [Acima da velocidade da luz], é capaz de nos levar a lugares incríveis numa única batida do coração.

 


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Aproveitando o espaço: Contos de Taverna é uma coletânea de contos de fantasia medieval da qual participo. Estamos com uma campanha aberta no Catarse. Entre lá, escolha uma recompensa e ajude a gente. Os autores e autoras selecionados são de primeira:

“O prefácio da obra é de Fábio M. Barreto e a coletânea agrupa dez contos de trovadores convidados pela taverneira: “A Canção das Sereias” (Renan Santos), “Encantadores de Dragão” (Rodrigo van Kampen), “Heróis” (Ariel Ayres), “Osbarg” (Mogg Mester), “Quick” (Mark Lawrence), “Redenção” (Jana P. Bianchi), “Segunda Chance” (J. M. Beraldo), “Sobárvore” (L. A. Nuñes), “Sombras, Espelhos e Lâminas” (Lauro Kociuba) e “A Última Corrida de Minotauros em Salvaterra” (Ana Cristina Rodrigues).”

Saiba mais e apoie a gente no Catarse!

 

Frase do dia: "quando seriamente explorada, a história curta é a mais difícil e a mais disciplinada forma de escrever prosa… Num romance, pode o escritor ser mais descuidado e deixar escórias e superfluidades, que seriam descartáveis. Mas num conto… quase todas as palavras devem estar em seus lugares exactos" - Faulkner

Foto: Johnny Grim via Compfight cc

Postado em Redação no dia 8 de setembro de 2016

Um Comentário

  1. Muito bom! Rodigo, alguma chance de um post neste mesmo molde mas tratando sobre noveletas/novelas?
    Estou acompanhando o conteúdo da última newsletter e agradeço MUITO o material sobre organização! Esta é minha principal dificuldade atualmente ao escrever!
    Abraço!

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