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O que seu estilo de escrita revela sobre você?

N.E. Este é um texto da convidada Julia Dantas: jornalista, mestra em Mídia e Tecnologia, freelancer de conteúdo e uma grande amiga. É o tipo de pessoa que já trabalhou em todo tipo de editoria, de entretenimento a turismo, de sexo a astrologia. Mais em juliadantas.com.br

 

Olá, leitores do Viver da Escrita! Vocês ainda nem me conhecem, mas já vou logo falando: tenho tido bloqueios com escrita. Aí você se pergunta: por que cargas d’água essa pessoa está escrevendo num espaço chamado VIVER DE ESCRITA? Ela não vive? Não come? Não se alimenta?

Na verdade, sempre gostei de me expressar pelo texto. Acredito que seja um efeito colateral da minha geração, que acabou vivendo a adolescência na época da proliferação de blogs, antes das câmeras nos celulares e dos vídeos de 10 segundos enviados para os coleguinhas. Comecei meu blog pessoal quando mudei de cidade, aos 14 anos, como uma forma de manter contato com amigos próximos. Antes disso, eu já tinha o hábito de colocar todas as minhas ânsias e neuras adolescentes em um diário, então a transição foi natural. Gostei da coisa e desenvolvi uma certa habilidade para isso, o que fez com que meu blog alcançasse relativo sucesso para a época (e para a minha idade). Daí para o jornalismo foi um passo. Afinal, se a minha melhor competência era escrever, por que não viver disso?

Pois bem. Acontece que, assim como toda profissão, a escrita também tem suas nuances. Num mundo cada vez mais binário, é bom lembrar disso. Assim como nem todo designer sabe fazer ilustrações ou o CSS de um site, nem todo mundo que escreve bem pode escrever qualquer coisa. Vou contar meu exemplo.

Nos últimos dois anos, a maioria dos textos que tenho produzido são acadêmicos. Daí a história do bloqueio. Para mim, tem sido um verdadeiro parto sentar na frente do meu computador, com milhares de PDFs abertos e xerox devidamente grifados espalhados pela mesa, e fazer sair um texto inteligível e relevante. Por mais que eu adore escrever e adore estudar e aprender coisas novas, o texto acadêmico não é natural pra mim. Ele pede rigor, referências teóricas, distanciamento e um tipo de objetividade crua com a qual não estou acostumada. E, por mais chatas que sejam, são características necessárias — afinal, sem o rigor do texto científico, seria impossível produzir ciência, trabalhos inéditos, sequenciar um pensamento racional. E é aí que está o pulo do gato: eu sempre fui avessa a formalidades, autoritarismo, regras, discurso pedante. Então, quando pedem que eu transfira para o meu texto essas características, tenho que vestir uma fantasia de acadêmica com a qual ainda estou me acostumando (afinal, o mestrado é para se aprender a pesquisar, não é mesmo?)

Outro exemplo são as crônicas. Crônicas são peças que me dão muito prazer em produzir, mas que, no meu caso, vêm muito mais da inspiração do que transpiração. Se eu faço uma crônica porque tenho que fazer, é quase certo que não gostarei do resultado. As que mais gosto nasceram de momentos especiais, em que eu estava particularmente sensível por causa de um determinado acontecimento. Creio que um bom cronista é aquele que tem uma sensibilidade aguçada, com um olhar para o outro e para o dia a dia muito diferente daquele que trabalha com o rigor e a objetividade da academia. Novamente: o texto está lá, mas a forma como você o talha varia muito de acordo com a sua personalidade.

Não vou nem entrar no mérito do texto de ficção: olha, vocês escritores têm a minha mais profunda admiração! Sempre fui muito prática e mais ligada à simbiose entre forma e conteúdo (daí minha paixão por hipermídia), mas criatividade definitivamente nunca foi o meu forte. Criar um personagem do zero? Criar um mundo? Estabelecer uma narrativa que seja interessante, sem bases ou fatos reais? É necessário uma capacidade de abstração enorme para isso. São talentos que vêm antes da capacidade de escrever um texto correto, sem erros gramaticais.

Mas, afinal, onde me encontro? É no jornalismo. Este é o meu texto mais natural e o que mais me encanta fazer. Gosto de trabalhar com a informação, de concatenar ideias, encontrar um gancho. Sinto prazer em passar pra frente informações que serão úteis, colocando-as em um formato ou linguagem que sejam fáceis para o público. Costumo dizer que gosto de “traduzir” o mundo, e não é isso que o jornalismo deveria fazer? É isso o que me motiva. Me dê uma pauta, um público-alvo e, depois de algumas entrevistas, te entregarei um texto em poucas horas — minutos, até. Posso falar de gravidez para adolescentes em formato de lista ou pensar em uma reportagem longform, com vídeos, gráficos e fotografias para, digamos, entender a ascensão e queda do último político deposto. Descobrir qual é o formato que mais favorece a transmissão de um conteúdo é um dos meus grandes prazeres, e aí entra a escrita.

Claro que, com a prática, estudo e muita força de vontade, é possível desenvolver qualquer competência. E todo o conteúdo deste blog está aqui pra ajudar a quem segue nessa missão! Mas tenho a impressão que a personalidade, o jeito de cada um, acaba servindo de bússola pra quem quer se encontrar dentre tantos gêneros da escrita. Você concorda? Como a sua personalidade se traduz nas obras que você cria? Estou curiosa!

Frase do dia: Você precisa escrever como você mesmo. Todos os outros nomes já estão pegos.

Foto: SpOOn^Man Flickr via Compfight cc

Published in Convidados no dia 24 de abril de 2017

2 Comments

  1. Olá,
    Parabéns, me identifiquei muito com o texto.

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