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Precisamos falar sobre clichês

A Trasgo não é uma revista de terror ou horror. Mas por algum motivo (talvez porque brasileiros adorem escrever coisas trevosas) eu recebo muitos contos do gênero para avaliar.

E como se esse já não fosse o meu gênero menos favorito, é recheado, lotado, abarrotado de clichês. Vamos falar um pouco sobre eles?

Primeiro: "por que não usá-los, se há grandes clássicos inspirados nessas estruturas?" Porque é um truque batido para aumentar o drama sem se dar ao trabalho. É como um cara lendo um livro de piadas no próprio stand-up. Nope. Você precisa fazer sua lição de casa e trazer o seu algo a mais. Se o leitor quisesse drama fácil era só apertar este botão:

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Segundo, sei que esse artigo vai gerar controvérsia, porque há uma chance enorme de você, escritore, já ter usado algum desses clichês alguma vez. Eu mesmo já usei quase todos eles (em obras boas, medianas e muito ruins).

ENTÃO:

  • Isso não é uma critica a você.
  • Isso não é uma indireta a ninguém (nem a você, senhorita J.)

Também não estou arrancando rabanetes do chão gritando "nunca mais passarei fome lerei obras com esses clichês." Você pode usá-los, mas saiba que são clichês, você vai ter que colocar um bacon nesse feijão. A revelação "oh, o protagonista é um robô" sozinha não é bombástica o suficiente para sustentar a obra. "Oh, o protagonista é um robô viciado em fotos de gatos" já é muito mais interessante.

 

Alguns clichês de horror

Oh, estou nesse lugar horrível horrível e escuro! *Complexas descrições do chão de madeira, sangue nas paredes, ganchos de açougue* (sempre me pergunto como dá para ver tudo isso na escuridão). Consigo escutar o monstro/sons estranhos/correntes se arrastando, oh não, ele está aqui, oh, ele vai me pegar, socorro, aaaaaaargh! *Conto acaba.*

Acordo em uma floresta/clareira/lugar industrial deserto. Minha roupa está suja de sangue e não me lembro de nada. Quem sou eu, o que é esse lugar? Oh, eu sou um lobisomem/monstro/assassino! Oh, não, e agora? *Demônio/Diabo/Monstro aparece.* Ele disse que eu vendi a alma a ele, mas eu não me lembro, o que vou fazer? *Suicídio*

Acordo. Situação feliz feliz. Algo terrível acontece. Foi culpa minha, sou um monstro, e agora, vou me matar. Tento me matar. *Acordo de novo.* (Aliás, esse tipo de horror cíclico já está mais batido que bengala de velhinha).

 

Alguns clichês da ficção científica

Não entendo o mundo, sou deslocado, sou diferente. Oh, eu sou um robô! Tcham, tcham tchaaaam! (Existe a variação "oh, eu sou um alienígena", que dá na mesma.)

Qualquer coisa que repita os conceitos da Guerra Fria sem nenhuma construção nova sobre isso. (Muita coisa da FC clássica foi escrita durante a guerra fria. Muites autories repetem a mesma estrutura sem perceber a linha de raciocínio.)

O-mundo-acabou-e-agora-tem-monstros/zumbis/ets-em-todo-lugar.

Pistola de raio laser. (Mentira, pode continuar usando pistola de raio laser, isso eu adoro.)

 

Alguns clichês da fantasia

Elfos que odeiam anões que odeiam elfos. (Até Tolkien desconstruiu esse clichê e você aí no disco quebrado. Aliás, criaturas (e estruturas) tolkenianas já estão um tanto batidas, está na hora de se esforçar um pouco mais para criar seu cenário fantástico).

Somente um coração puro pode abrir o baú que vai Resolver Todos os Problemas de Todo Mundo e Acabar com Todo o Mal! (Vou chamar de clichê-filme-da-xuxa).

*Descrição. Descrição, descrição, descrição. Mais descrição.* Espera, preciso descrever em minúcias quem é o rei, o filho do rei e o sobrinho bastardo do rei. Agora sim, apresentamos o protagonista. *Descrição do protagonista. Descrição do cavalo do protagonista. Descrição da casa do protagonista. Descrição da grama verdejante, da neve brilhante, das crianças saltitantes. Mais descrição da grama brilhante, da neve saltitante e das crianças verdejantes.* (Você chega à quarta página e ainda não faz ideia de qual história será contada. Nah, eu nunca chego na quarta página.)

A elfa/taverneira/moça indefesa tinhas as vestes rasgadas e provocantes, num longo decote, saia minúscula, pernas para que te quero e Outras Carnes Voluptuosas Aparecendo. (Apenas parem. Sério.)

Enfim.

Deixa eu repetir. Não tem nada errado com nenhuma dessas estruturas. Mas elas são bastante básicas para realmente cativar (isso em um conto, imagine um romance). A graça está no que você vai construir além delas. Pense assim: se for usar uma estrutura comum, ela será o seu arroz sem sal. Você precisará de uma boa misturinha para conseguir impressionar os juízes do Masterchef o leitor.

Lembra de outros clichês mais que batidos da literatura de gênero? Deixe aí nos comentários!

Frase do dia: Pare de julgar os filmes cheios de clichê que eu assisto e vá fazer pipoca!

Foto: Jointed-Squeek via Compfight cc

Postado em Literatura no dia 22 de junho de 2016

5 Comentários

  1. Adorei os clichês! Os de terror me divertem, sempre. Adoro histórias que começam com “it was a dark and stormy night”. Mas fantasia me dá muita preguiça mesmo, e essas descrições matam qualquer um. Eu não sou muito de ficção científica, mas tenho lido alguns no meu clube do livro, e percebi que a galera adooora uma exposição e um “as you know it”. Até autores consagrados. Eu estou começando a entender porque a Margaret Atwood não gosta que chamem a obra dela de ficção científica, e prefere ficção especulativa.

  2. Dito Muniz

    Dito Muniz

    QUE TAL UM TEXTO SOBRE O INSUPORTÁVEL USO DO TEMA; O ESCOLHIDO.

  3. Patrícia Arraes

    Patrícia Arraes

    Além do filme da Xuxa, voce me lembrou do cliche “Filme do Didi”: O cara desastrado porém “coraçao puro”, querido pelas crianças, que acorda e faz gracinha quando todos pensam que ele morreu e que apesar de todo o protagonismo, mal se apaixona pela mocinha e a perde pro galã

  4. Não sei se pode existir uma ambientação clichê, mas algo que tenho notado é que as pessoas imediatamente associam fantasia a uma ambientação medieval. Não que eu não goste de fantasia medieval (alguns dos meus livros favoritos são, e muitos inovam bastante nesse quesito), mas seria interessante ler sobre uma época diferente de vez em quando (e que não seja fantasia urbana passada em nosso mundo). Especialmente se for uma época pós-industrial.
    Isso também parece um pouco associado ao clichê da desarmonia entre magia e tecnologia. Às vezes, mesmo histórias de fantasia urbana apresentam esse afastamento entre os elementos mágicos e a vida moderna (Harry Potter é um exemplo), e os personagens têm de abdicar da tecnologia para fazer parte desse mundo.

  5. Karoline

    Karoline

    Não vou mentir, amo um clichê! Mas tenho que concordar que clichês tem de ter seu temperinho. De nada basta jogar mil informações pré-formadas em páginas no Word e publicar, tem que ter um carinho especial, afinal, quem escreve é porque gosta!

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