Pular para o conteúdo →

As quatro estações do fazer artístico

Verão: você vive

Você entra em um ônibus às seis e meia da tarde, respirando o mesmo ar que sessenta e duas pessoas. Repara na senhorinha que carrega uma enorme sacola amarela nos ombros e se morde de curiosidade para saber o que tem ali. Ela desce quatro pontos antes do seu, você estica o pescoço, mas o solavanco da condução te coloca de volta ao lugar. Só resta imaginar.

Você pilota sua moto por 250 km até uma cidadezinha de 10 mil habitantes só porque um colega do trabalho disse que foi lá que ele comeu a melhor torta de maçã do mundo. Leva o marido na garupa, porque você precisa de testemunhas, e pede dois pedaços do tamanho de uma bola de futebol porque não importa o tamanho do pedaço, a porção é individual. O gosto vale cada litro de gasolina.

Você beija, transa, sua, chora, grita, xinga, vive.

Outono: você consome

Lançamento da nova HQ daquele artista badalado que todos os blogs indies estão falando, o auge do sucesso, mesmo que sua mãe não faça a menor ideia de quem é ele ou sobre o que é o seu trabalho anterior que levou todos os prêmios do mercado.

Você lê aquele livro que estava na sua lista de "obrigatórios" desde 2007, uma bela de uma pomposa decepção. Você faz um esforço tremendo para gostar, mas a química não está a seu favor. Você termina com uma sensação de alívio e dever cumprido, sabendo que vai sorrir amarelo sempre que alguém citá-lo em uma roda de conversa ou palestra.

Em compensação, aquele livreto que você comprou só porque o autor era bonitinho e tinha um sorriso vendedor de pasta de dente te abocanha para dentro da leitura, é guilty pleasure, você odeia o termo, mas precisa saber o que vai acontecer com a pobre loba e o mocinho indefeso. Termina as 200 páginas em uma tarde e já compra o anterior do mesmo autor para devorar no dia seguinte.

E você lê todos os blogs, resenhas, posts e newsletters que estavam acumulando poeira na sua tela. Salva os melhores e compartilha os mais polêmicos. Guarda alguns no computador, outros no coração, sentindo-se a especialista em mercado, escrita e, bem, tudo.

Inverno: você reflete

Você larga o celular no criado-mudo ao lado da cama por um dia inteiro. No outro nem percebe que a ponta do carregador não está na tomada e a bateria morre. Tudo bem, é inverno. Você joga água fervendo na hortelã recém colhida da horta, deixando-se invadir por aquele cheiro calmante que faz cócegas no seu nariz. Você olha para a sua parede branca, ou cinza, ou vermelha, ou cheia de desenhos de criança e deixa a mente ir longe.

Você leva a cachorra para passear sem os fones de ouvido, porque na semana passada foi divertido ouvir algum vizinho tentando aprender a tocar clarinete, o horário de passeio é sempre mais ou menos o de ensaio, e você acompanha o guincho de elefante se tornar música, uma nota de cada vez. O cachorro sabe o caminho, seus olhos podem descansar em qualquer rachadura da calçada enquanto o olhar está mesmo para dentro, juntando tudo o que aconteceu nas estações passadas encontrando ligações curiosas, novas conclusões e talvez aquele livro horrível não seja tão ruim assim, pensando melhor.

Você coloca uma coberta a mais na sua cama e tira do armário aquele saco de dormir que você achou que nunca iria usar e pensa no que realmente é o frio, olhando seus pelos se eriçarem e seus pés cobertos de meias grossas reclamarem do piso da cozinha. Você se imagina em um mundo sem calefação, sem cobertores quentinhos, sem uma parede de vinte centímetros te protegendo do mundo lá fora e também descobre por que escritoras adoram usar o frio como metáfora para todo sentimento ruim que vive dentro da gente.

Primavera: você cria

Como num fluxo de consciência, você escreve, ou pinta, ou desenha, ou canta tudo aquilo que vem à tona, num movimento catártico. Pensa o que você diria se alguém lhe perguntasse quanto tempo você demorou para produzir aquela obra, se a menção à melhor torta de maçã do mundo no terceiro capítulo é uma homenagem à altura, e como vai agradecer à clarinetista misteriosa no discurso do prêmio.

O devaneio arranca um sorriso do seu rosto. Mas você logo volta ao trabalho, é preciso produzir, criar, passar as ideias para o papel, para as teclas, para o mundo.

Afinal, é primavera.

Frase do dia: Há artistas que vivem as quatro estações em um dia. Outras em uma semana, um ano, dez, uma vida inteira. Nunca conheci quem pulasse estações.

Foto: Thomas Hawk Flickr via Compfight cc

Postado em Pensamentos no dia 22 de março de 2017

Um Comentário

  1. Jana

    Jana

    Fiquei emocionada, de verdade… Que texto mais maravilhoso! 🙂
    Obrigada!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *