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Sobre a arte de escrever pães

Se tem algo em mim que impressionou minha esposa, foi minha paixão por pão. Consigo cortar qualquer coisa do meu cardápio, até o chocolate. O pãozinho é que não dá. Assim, nada mais natural que me aventurar pelo mundo da panificação artesanal.

Mas você não entra assim de uma vez nas drogas. Tudo começou com um vídeo há alguns anos. Depois Michael Pollan dedicou boa parte de um episódio de sua série no Netflix, “Cooked“, para falar sobre pães. Depois, como um sinal divino, uma matéria no Nexo trazia os links para quem quer começar. Ok, hora de enfarinhar as mãos.

E enquanto eu sovava aquelas pelotas tristes e molengas que foram as primeiras tentativas, eu me dei conta de que estava reaprendendo a escrever.

Você vai errar muito antes de acertar

A primeira tentativa não chegou nem a ser sovada. Você não consegue sovar uma geleia. Afinal, essa era a consistência da minha primeira gororoba grudenta, quando eu descobri que 200g de farinha não é igual a uma xícara. De tentativa em tentativa, foram 8 “pães” jogados no lixo. Como os primeiros contos, cópias baratas que felizmente já foram assados.

Por mais que a gente saiba que os primeiros serão ruins, é difícil. Para ajudar, quando você está frustrado com a última fornada de microcontos que não ficou tão boa assim, você olha o colega anunciando o livro novo por uma editora grande, ou outro com um pão italiano lindíssimo que até brilha na foto.

Mas a gente só compartilha o resultado final, e não todo o trabalho até ali. Vai saber quantas massas grudentas aquele escritor passou madrugadas tentando sovar, sem sucesso?

Existem receitas e truques, e existe o tato

A humanidade conta histórias e faz seus pães há milhares de anos, você não precisa começar do zero. As receitas estão aí para te ensinar técnicas de como manter a tensão na cena ou a temperatura ideal do forno para assar os seus personagens.

Quando comecei a cozinhar, eu odiava os termos misteriosos das receitas, como “bater claras em neve” ou “mexer até o ponto de brigadeiro”. São detalhes que você aprende com o tempo, entendendo como dosar o calor da narrativa e equilibrar os ingredientes das histórias.

As receitas de pão dizem para você controlar a água até encontrar o ponto da massa. Porque há dias mais úmidos e dias mais secos, épocas de experimentações e épocas conservadoras. Aí está o segredo, o ponto. Quanto drama até virar um dramalhão? Quantos detalhes sem descambar para o horror gratuito? Será que uma pitadinha de humor cabe nesta receita?

Entender o ponto é algo que só vem com tempo e experiência. É preciso ler, cozinhar, estudar e observar as misturas borbulharem.

Pães e livros precisam de tempo para fermentar

O pão de fermentação natural leva, no mínimo, 6 horas para crescer. Em dias frios demora mais. Há até quem deixe de um dia para o outro para que o fermento trabalhe todo o glúten da farinha. Na receita que faço, existem três tempos de espera: o primeiro chama-se hidrólise e consiste em alguns minutos, logo após misturar tudo, para que a farinha hidrate bem. O segundo são horas descansando depois de uma boa sova. Dobre a massa novamente, e adivinha? Pode deixar o pãozinho ali crescendo no canto antes de ir para o forno.

Textos também crescem se você dar tempo a eles. Você deixa as ideias na cabeça (ou no papel, em um caderno, o que preferir), até que elas se integrem de verdade. Então vem o trabalho pesado, amassar o primeiro rascunho. Mande-o para a gaveta por umas semanas e depois dobre o texto algumas vezes. Descanse, revise, repita. Seu texto vai ficar muito mais saboroso, eu garanto.

E não adianta acelerar o processo, não é assim que funciona. Existem produtos químicos e truques de escrita para ver o resultado mais rápido, mas eles sempre deixam um gostinho residual.

É preciso sovar

Não adianta misturar tudo e esperar que dali saia algo delicioso sem trabalhar a massa. Se pães podem ir para a sovadeira, ainda não inventaram uma boa batedeira de ideias, você precisa usar as próprias mãos.

Aprender sozinho é difícil pra caramba

Fui tentar fazer minhas receitas de pão com o que encontrava pela internet, aqui e ali. Um vídeo sobre como modelar a massa, outro sobre como achar o ponto da sova. E assim, patinei muito em erros básicos. Eu olhava para aquela gororoba que não queria virar um pão sem saber o que estava errado, ou como arrumar a partir dali.

Se eu tivesse uma nona ao meu lado, ou mesmo à distância, acompanhando o meu trabalho, eu estaria na direção certa muito mais rápido (ainda acho que preciso aprender a coisa direito, para ser sincero). Tem coisas que só uma boa professora pode fazer, apontando os seus erros básicos.

Você já sabe onde vou chegar, não?

Vejo gente demais escorregando em conceitos básicos de escrita, seja na criação de personagens, seja em como começar um conto ou livro. Olhar as informações fragmentadas e dicas de escrita espalhadas por aí (e neste blog) ajuda, mas você ainda precisa descobrir os seus próprios pontos cegos. E é exatamente aí que eu quero ajudar.

A Oficina de Escrita Literária aqui do Viver da Escrita é um curso online com produção de exercícios toda semana, onde eu acompanho o seu trabalho e aponto caminhos específicos para a sua produção.

Quer saber mais? Aproveite que estou com uma turma aberta, e as primeiras inscrições têm desconto!

Quem sabe você não sai com um belo pão para mandar para as editoras?

Frase do dia: Quem não gosta de pão bom sujeito não é.

Foto: Opa, esse pão da foto no topo fui eu quem fiz!

Published in Redação no dia 31 de maio de 2017

One Comment

  1. Que texto delicioso, Rodrigo!

    (perdão pelo trocadilho tosco)

    Mas falando sério, seu texto toca em um ponto de extrema importância, e que os escritores amadores na maioria das vezes ignoram: a paciência.
    Ninguém cria uma obra prima do dia para noite, e é mais do que justo que as primeiras tentativas não resultem em produtos tão bonitos ou atraentes. Mas faz parte!
    É que atualmente existem tantos guias, tantas dicas, infográficos, listas e atalhos que fica a falsa impressão de que basta seguir a receita do bolo (ou do pão, no caso) para sair tudo perfeitinho no final. Infelizmente não é assim que acontece.

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