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Sobre fazendas de conteúdo

Descobri o negócio na faculdade, uma amiga usava para pagar umas cervejas. Não dei bola na época. Anos depois, quando decidi que eu queria muito virar freelancer, reapareceram na minha vida. Inscrevi-me em todas elas. Fui aceito. Olhei as propostas. E nunca entreguei um único texto.

Eu chamo de “fazendas de conteúdo”, não sei se existe um nome certo. São sites com ofertas de textos para redatores. Uma lista grande de trabalhos a um clique de distância. Opa, vou pegar esse texto sobre sabonetes de gordura de alce para escrever. Click. Agora tenho dois dias para entregar para o cliente. Assim que eu entregar, o texto será revisado pela equipe e eu recebo pelo meu trabalho.

Até aí, lindo, nada demais. O conceito é bacana, as equipes são bem intencionadas. O que não é bacana é o valor pago por texto, geralmente de 25 a 50 reais, em média, por textos de 500 a 750 palavras. Então eu fiz as contas e o valor é baixo. Pense comigo.

Detalharei melhor quanto tempo demora um texto em outro artigo adiante, mas vamos dar uma pincelada no assunto. Os textos do Viver da Escrita são produzidos praticamente sem pesquisa. Eu já sei o que eu quero escrever, então sento e martelo as teclas até o tal texto ficar “pronto”, o que leva mais ou menos uma hora. Opa, 50 reais por hora é pouco?

Calma. Essa é a primeira versão do texto. A seguir vem a primeira revisão, onde são colocados os links, intertítulos e muita repetição é removida. Até um terço dessa primeira versão vira lavagem. Esse processo leva, no mínimo, meia hora. Nos casos dos textos do Viver da Escrita ainda há uma terceira revisão, feita no próprio modo de prévia, para limar os últimos erros, apagar exclamações e os vários “no caso” que eu espalho pelo texto desgraçadamente. Vamos colocar aí duas horas de trabalho.

Seria pouco. Mas não são duas horas de trabalho. Faltou um ingrediente importante da produção de um texto: pesquisa e organização dos fatos. Eu não entendo nada sobre sabonetes de gordura de alce. Adicione aí pelo menos uma hora de pesquisa antes mesmo de abrir o editor de texto.

Agora é a hora da conta de padaria. (*entra vinheta: ♪ continhaaa de padariaaaa ♪*)

Vamos dizer que você consiga escrever três textos por dia. 8 horas de trabalho, 22 dias úteis por mês, são 66 textos mensais. Com isso dá para tirar entre 1500 e 2000 reais por mês. Quase um bom salário.

Espera.

66 textos por mês. São pelo menos 33 mil palavras. Um romance a cada dois meses, escrevendo sem parar e apenas para este cliente. É trabalho exaustivo por um valor relativamente baixo, se considerarmos escrita como um trabalho que exige preparação e conhecimento. Sem falar que você se tornará uma fábrica de palavras, sem tempo para outras reflexões, cansada demais para trabalhar em suas próprias obras, blogs, contos. Nesse cenário é melhor arrumar um emprego formal.

Não se prenda ao número de palavras. Não é tão difícil escrever 2000 palavras por dia, mas lembre-se que são vários textos diferentes. Entrar no clima de cada um deles também vai levar tempo, um tempo que é difícil de colocar no orçamento.

Claro, a escolha é sempre sua. Também não quero entrar na discussão “ah, mas eu escrevo um texto em 15 minutos”, porque ou você produz um lixo de texto, ou você escreve fantasticamente muito rápido e poderia ganhar muito mais com essa habilidade.

Mas estou aqui pensando em extremos. De repente faz sentido escrever uns cinco ou seis textos por mês para esses serviços e tirar um trocado, por que não? Não é algo que funcione para mim, eu prefiro ficar sem a dinheirinha e aproveitar o tempo para escrever neste blog para vocês, produzir meus contos e trabalhar no meu curso, projetos que acredito que trarão um retorno maior a longo prazo.

O que não aconselho é tentar criar uma carreira a partir de fazendas de conteúdo. Primeiro, que o relacionamento com o cliente será intermediado, você não vai conseguir mais trabalhos daquele cliente ou que ele recomende o seu trabalho a outras empresas. No máximo vai recomendar o site para o qual você trabalha. E segundo, que a tendência não é conseguir cobrar cada vez mais com o passar do tempo. Você está sempre presa à tabela do site e não sua própria tabela, o que pode ser uma armadilha para freelancers. Pode ser uma boa primeira experiência, no entanto.

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Este conteúdo faz parte do ebook “Quanto vale o seu texto“.

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Frase do dia: "Muuuu."

Foto: James Loesch via Compfight cc

Postado em Redação no dia 16 de fevereiro de 2016

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