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Por que viver de arte? (Mais fácil se você for um filho da mãe)

Mas você não é um filho da mãe, você tem valores. Só que, às vezes esses valores parecem brigar o tempo todo, e você se pergunta: por que viver de arte? Por que freelancer? Por que a escolha mais difícil?

Este não é um texto sobre bufunfa (embora a sua falta apareça algumas linhas abaixo). Falo de Valores, com v maiúsculo, que empresas quadradinhas adoram pendurar num quadrinho na recepção. Todo mundo tem seus valores, e na hora de escolher viver de arte, vixe… Melhor sentar, que o texto vai ser longo.

Deixe-me começar contando que venho trabalhando num romance desde que a esposa estava grávida, há dois anos, e ainda estou enrolado sem terminar o primeiro rascunho, caçando tempo para escrever. Por acaso, conversava com um homem, pai de um menino de dois anos, que terminara o seu primeiro romance, um épico de 200 mil palavras escritas em um ano. Perguntei como era possível, ao que respondeu: “Ah, com bastante disciplina. Chego do trabalho, janto, e sento para escrever duas horas, todos os dias.” Não tive coragem de perguntar que horas cuidava do bebê.

Antes, vamos esclarecer duas coisas: primeiro, o conjunto dos seus valores é um troço construído desde que você é um toquinho de gente, por meio de observações, reações, narrativas, tudo junto e misturado. E claro, o exemplo vai ter muito mais impacto do que o discurso. Se um pai repete que nem papagaio de pirata pra criança ter mais paciência, mas berra com qualquer atraso do carro da frente no semáforo, qual mensagem você acha que vai ficar gravada de verdade?

A segunda coisa é que os valores ficam num lugar tão profundo da sua mente que é praticamente a única coisa capaz de modular imediatamente o que você sente (o sentimento é uma reação primal, acontece antes que possamos racionalizá-lo).

Por exemplo, pense em alguém que cresceu numa família tradicionalista, ouvindo que ser gay é errado, não é de Deus, é safadeza, e se descobre homossexual no início da adolescência. Qual a chance disso desencadear um processo de autocensura, autorrejeição e autosabotagem?

O complicado é que sim, é possível mudar o seu conjunto de valores, estamos mudando o tempo todo, mas muito, MUITO devagar. É algo que está ligado à sua própria identidade (e que, muitas vezes, você vai lutar para preservar, consciente disso ou não).

Para mexer em valores, o negócio é terapia, cultura e narrativa. O convívio com uma realidade diferente da sua faz milagres no longo prazo, mas não há bala de canhão que resolva imediatamente (até porque você se fecha e rejeita o que choca demais com os seus valores). Por isso narrativas diversas são tão importantes na infância e preadolescência, elas ajudam a construir um conjunto de valores mais tolerante, numa fase em que estamos muito mais abertos a isso do que na vida adulta.

E o que esse papo de terapia tem a ver com viver de arte?

É agora que eu vou confundir mais um pouco sua cabeça.

A gente costuma pensar nos valores como algo inerentemente bom, um ideal a ser conquistado. Empatia, honestidade, lealdade, educação, tolerância, olha quanta palavra bonita. Mas volta e meia é mais útil pensar em valores como uma hierarquia, porque na hora do aperto, eles vão se chocar num contra o outro.

Se você tiver que mentir para que o seu pai não vá para cadeia, qual valor pesa mais? Lealdade ou honestidade?

Ou ainda, se você valoriza a arte acima de tudo, mesmo que precise atropelar quem estiver ao lado, o que isso diz sobre você? (São os chamados “art monsters”, pessoas que produziram uma arte valorizada no meio acadêmico, mas que destruíram família e vidas no processo.)

Enquanto tudo está tranquilo, os valores ficam lindos na parede do escritório do seu coraçãozinho, mas a vida sempre passa a perna. E se você escolheu viver de arte, minha amiga, uma hora a grana acaba. E aí, acabou paz de espírito, fotinha de ioga na praia, acabou hashtag #vidaempreendedora, porque os boleto não perdoa.

Na literatura a gente diz que a função da escritora é ferrar com as suas personagens (é basicamente o que a vida faz com a gente). Aumentar a pressão, puxar o tapete, fazer as certezas caírem por terra. Isso porque é na crise que a verdade aparece.

Todo mundo pode dizer que é generoso, mas quem realmente para e vai trocar uma ideia com um morador de rua? Todo herói é super corajoso até ter que ficar frente a frente com um horror cósmico qualquer.

Vamos falar de pressão financeira, que está diretamente ligada às responsabilidades daquele personagem. Se é sozinho, tudo bem dormir no sofá, comer miojo todo dia, torrar as economias naquele evento de escrita mara com todas as celebridades do mundinho da escrita, tudo é uma grande festa até o fim de semana acabar e todo mundo voltar para as próprias dívidas no cartão de crédito.

Um cônjuge complica um pouco as coisas. Se ele vai no tal evento, a esposa vai ficar brava por ter que cancelar a viagem a dois. Tem mais, o cônjuge também tem seus próprios sonhos e planos: viver de alguma arte diferente da sua, ou comprar uma casa própria, ou arrumar uma Kombi e viajar o mundo. Mas dois adultos ainda conseguem conversar, se entender, elencar prioridades. Agora, quer ferrar o orçamento? Coloca um filho para esse casal (ou personagem) criar. De repente o que era #liberdade, #escolhadevida, #vivendoosonho pode se tornar #irresponsabilidade #badparenting.

É muito fácil, e até clichê, encher a boca para falar “eu valorizo a educação do meu filho, é a coisa mais importante do mundo”. Mas e se você precisar colocar o seu filho na escola pública para escrever os seus romances?

Vamos fazer uma pausa para um breve parênteses. Essa não é uma crítica à escola pública, que deveria ser a base de uma sociedade mais justa, ou apontar o dedo a quem não tem escolhas, o que seria injusto e até cruel. É um artigo justamente sobre o privilégio de poder escolher, e o que você faz com as opções que tem.

E se estamos falando de privilégio, é fácil bater no peito e alardear a coragem de viver da sua arte quando você tem uma família rica, ou um contexto social para o qual você sempre pode voltar. Você sabe que, no fundo, não vai passar fome. Há quem precise fazer escolhas sem essa sua rede de proteção aí. Ou, em alguns casos, aceitar essa grana (que vem atrelada a todo tipo de “obrigações”) mais atrapalha que ajuda. Mas voltemos:

Na pressão os valores aparecem

Então você está no terceiro mês em que o dinheiro não vem, suas reservas abaixam, talvez mês que vem falte para a escola da criança, talvez você consiga aquele projeto grande que está no “quase”. Talvez você aceite aquela proposta de emprego formal que apareceu no LinkedIn que você não atualiza há anos.

Ou talvez você insista em viver de arte.

Na pressão, você precisa de ajuda. Não se trata apenas dos seus valores, mas daqueles que estão à sua volta. Sabe o tal “vá procurar a sua turma”? É questão de sobrevivência. Muitas vezes dentro da própria família a gente é bombardeado o tempo todo por valores diferentes (o teu primo foi promovido e tá ganhando 15 mil). Nessas horas, ajuda muito conhecer, ou saber que existe, outras pessoas tentando atravessar o oceano num barco parecido com o seu (e algumas até conseguiram comprar um barco maior, uau)!

E também trata-se de criar a sua própria turma. Os valores nem sempre vão se alinhar completamente, mas e a tolerância às diferenças? (Perceba, agora, como fui injusto com meu camarada do romance épico, afinal, eu não sei o que foi acordado entre ele e sua família.)

Outro dia eu estava jantando com a esposa e filha, e no brinquedão do restaurante (acredite, parquinho é onde o networking acontece de verdade) conheci a mãe de uma menininha, tradutora, cujo marido é músico, ia tocar ali naquela noite. Conversa vai, conversa vem, ela me pergunta: “por que a gente insiste em escolher o caminho mais difícil? Por que viver de arte?”

Pensei tanto nisso que já estou pelas mil palavras e ainda não consegui agarrar a pergunta pelos chifres. Escolher viver, ou mesmo produzir arte, é optar por trabalhar à noite, forçar os olhos a continuarem abertos porque o prazo da coletânea está para vencer. Receber uma renda menor e ver tua esposa chegar exausta do trabalho e pensar que, lá no fundo, esse cansaço todo é culpa sua (porque o valor que você foi ensinado é que o homem deve prover ao lar, e nessas horas você descobre que não é tão desconstruído como gostaria). É escolher para a sua filha uma escola “boa o bastante”, mas conviver com a dúvida, quem sabe, se você tivesse uma carreira tradicional, poderia bancar algo melhor. É largar a tua família por repetidos fins de semana para que você possa trabalhar naquele romance, esse sim com alguma chance de ser publicado, vai dar certo. Mas se isso não faz de você um artista melhor, com certeza faz um marido e pai ausente.

Antes de tudo, viver de arte é uma escolha.

Sim, os teus valores vão se chocar o tempo todo. Você tenta sobreviver neste caos. Se não existe um único caminho certo, às vezes é importante erguer o peito e dizer “eu estou fazendo e vivendo o que eu acredito, ou pelo menos tentando”. Envolve negociação (muita, queria ter aprendido isso na escola), num fim de semana você vai trabalhar no grande romance do século XXI, no outro você vai cuidar da filha para a esposa escrever o VERDADEIRO grande romance do século XXI.

Quando você escolhe algo diferente da tradição, você passa uma mensagem. Talvez você mostre para a sua filha, para suas alunas, suas leitoras, que é possível, sim, buscar o que se ama na vida, e que você não precisa passar a vida abaixando a cabeça para empregos (e chefes) desumanos, que vale buscar outra coisa (seja o que for, arte ou não), e que tudo se ajeita cedo ou tarde.

E nesses tempos conturbados, produzir arte pode ser uma escolha plena. Num país em que pouco se valoriza (e até se condena) a produção de beleza, produção de contextos, produção de questionamentos, a gente precisa muito de artistas, de gente que diz “eu acredito nisso”, com consciência de quais valores anda passando adiante.

Muitas vezes faltarão respostas, até porque essa não é uma questão com certo e errado. Mas trazer as perguntas pode ser tão importante quanto.

 

Um agradecimento mais que especial à incrível esposa que cuidou de colocar a bebê para dormir para que eu pudesse escrever este texto aqui. E outro à Anna, que olhou uma primeira versão deste texto e apontou problemas. Você deveria assinar a newsletter dela, é ótima!

Frase do dia: A palavra fala, mas o exemplo berra.

Foto: Ricardo Viana

Published in Pensamentos no dia 3 de Abril de 2018

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4 Comments

  1. Lucas Amaral Lucas Amaral

    Texto fabuloso, Rodrigo. Me lembrou uma palestra do professor Clovis de Barros Filho, onde ele fala sobre valores complexos.

    Temos praticamente os mesmos dilemas. Mas, quando a arte chama, é preciso tirar 20 em testes de força de vontade com frequência. Nem sempre é possível. Mas a sensação de fazer o que considera a sua funcionalidade é mágica!

    Grande abraço, mestre!

  2. sua dor é minha dor. é difícil. escutei uma vez um ditado: se quer ir rápido, vá sozinho. Mas se quer ir longe, vá em boa companhia. Não somos monstros da arte. Com certeza, me doeria muito mais ser um monstro da arte. Escolhi estar em boa companhia 🙂

  3. Rapaz! Me tocou, bem ali, acima do fígado e abaixo do queixo, um pouco à esquerda.

  4. Poxa, Rodrigo. Tão verdadeiro esse artigo que chega a doer. Aquela pergunta que te fizeram, “por que escolher esse caminho difícil?”, fica no ouvido toda hora. Essa matemática da dedicação e de abrir mão de tanta coisa em troca de outras é de um resultado imprevisível, e seguimos batendo cabeça. A comunidade, como você falou, é um consolo; ver que tem gente no mesmo barco, e alguns vencendo, seja lá o que isso signifique, no fim das contas. Valeu pelo desabafo, tocou fundo. Continue firme aí na luta.

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